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O sentido das notícias sobre saúde na cultura contemporânea

Revista ECO-PÓS – vol. 10, n. 01

Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ

No Brasil, o campo da saúde teve suas ações fortemente permeadas pela comunicação desde o início do século XX. Ligada ao projeto sanitarista e associada às práticas educativas, a comunicação era entendida, no entanto, como um conjunto de instrumentos voltados para informar e persuadir a população, tendo em vista a modificação de seus hábitos e comportamentos. Hoje, sabe-se que a comunicação não pode mais ser pensada de uma perspectiva difusionista e meramente instrumental. Não pode ser entendida apenas como um aparato de propaganda de idéias ou como uma estratégia de convencimento.
O desenvolvimento dos meios e das novas tecnologias têm colocado desafios para pensar a comunicação, já que sua força e interferência na ordem social parece ter se acentuado. Hoje, toda a sociedade está impregnada pelos dispositivos midiáticos. Não é mais possível entende-la sem considerar o lugar e o papel que os meios de comunicação têm no seu interior e sem considerar a forma com eles redefinem a maneira de funcionamento de outros campos sociais, com os quais mesclam a sua lógica.
Por conta disso, a pesquisa na área de comunicação e saúde se desenvolveu muito nos últimos anos, e os laços entre esses dois campos do conhecimento têm sido estreitados. Diversas instituições – em cada uma das áreas – têm desenvolvido pesquisas que visam problematizar a questão do ponto de vista teórico e metodológico, assim como têm desenvolvido projetos ligados a práticas e ações no âmbito das instituições públicas.
Devido à importância e atualidade do tema, este número da revista ECO-Pós é especialmente dedicado à relação entre comunicação e saúde. O objetivo é apresentar um panorama das pesquisas que vem sendo desenvolvidas no entrecruzamento desses dois campos. Foram reunidos profissionais de diferentes instituições do Brasil e da Espanha que trabalham com o tema a partir de variadas perspectivas.
Já nas Notas de Conjuntura, Renata Ruiz Calicchio escreve sobre a luta antimanicomial, que comemora seus vinte anos no Brasil. A autora analisa a importância da arte e da comunicação tanto na transformação do campo da saúde mental, quanto para o avanço do processo de Reforma Psiquiátrica.
A seção Dossiê traz dez artigos dedicados à comunicação e saúde. No primeiro, José Luis Terrón Blanco faz um balanço sobre as pesquisas realizadas na Espanha. O autor constata que, apesar do interesse crescente, não há um aumento significativo dos estudos científicos nessa área e nem um movimento em direção a sua institucionalização como disciplina.
O segundo texto é de Áurea Pitta, que se dedica a estudar as Assessorias de Comunicação de duas Secretarias Municipais de Saúde. A autora busca identificar a lógica dos processos de trabalho e gestão das atividades de comunicação num contexto de veloz convergência tecnológica e implantação de um modelo de negócios para a TV digital.
Em seguida, Nilson Alves de Moraes se coloca um conjunto de questões: O que a comunicação no debate sobre a saúde, políticas e instituições tende a omitir? Quais a prioridade, o cronograma e a estratégia da comunicação na agenda da reforma sanitária e no desenvolvimento do SUS? Qual a influência da comunicação na criação, orientação, circulação e redefinição dos valores e práticas relacionados com a saúde pública? Como os interesses particulares influenciam na produção de representações, desejos, necessidade e demandas em saúde? Para o autor, comunicação e saúde são construções que anunciam e amplificam as lutas institucionais, científicas, assistenciais e discursivas.
O artigo seguinte – de Inesita Araújo, Janine Cardoso e Kátia Lerner – também reflete sobre as relações mais gerais entre comunicação e saúde. No contexto do SUS, busca-se articular os desafios da produção acadêmica com as dinâmicas, contradições, saberes, atores e lutas que moldam o projeto da reforma sanitária brasileira. O fio condutor do texto é a trajetória do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde/Icict/Fiocruz, do qual as três autoras fazem parte.
A relação médico-paciente é o tema do trabalho de Wilma Madeira, Fernando Lefèvre e Ana Maria Cavalcanti Lefèvre. Os autores buscam detectar como a Internet pode ser capaz de produzir mudanças nessa relação, tendo em vista que a Sociedade do Conhecimento aponta para novas formas de empoderamento e de produção de consensos no campo da saúde.
Paulo Vaz propõe uma visão alternativa para a análise das notícias sobre saúde. Segundo o autor, é fundamental que considere como os meios de comunicação participam da produção de subjetividade ao proporcionarem aos indivíduos um modo determinado de conceber o nexo entre prazer, sofrimento e tempo.
Ricardo Mendonça discute a construção do estigma acerca da hanseníase. O autor procura mostrar que os sentidos da doença variam em diferentes contextos, mas que não há uma simples substituição de imagens e sim uma permanente sobreposição de camadas de significação, que configuram um estigma complexo e bastante enraizado.
Fernando Alvares Salis e Mônia Mariani Besch apresentam os resultados do projeto de pesquisa Banco de Agentes - Uma estratégia de comunicação para a prevenção às DST/Aids em contextos de pobreza urbana, que incluiu a realização do documentário Tá me estranhando?. Partindo da hipótese de que o diálogo entre políticas públicas de saúde e a produção democrática de conhecimento é fundamental para diminuir a vulnerabilidade das populações às DST/Aids, a pesquisa teve como principal objetivo conhecer o trabalho desenvolvido pelos agentes comunitários de seis “bancos de preservativos” de dois complexos de favelas da cidade do Rio de Janeiro.
A Aids também é o objeto de estudo de Adriano de Lavôr Moreira, que analisa a cobertura jornalística realizada por duas instituições não-governamentais na Web. Uma delas é a Agência de Notícias da Aids, fruto de um projeto da jornalista Roseli Tardelli, criado em maio de 2003, com o objetivo de divulgar, diariamente, informações e dados sobre a doença nos moldes dos escritórios de produção jornalística; a outra, a revista Saber Viver, lançada em outubro de 1999, com o objetivo de promover a saúde das pessoas infectadas pelo HIV e que hoje é distribuída em todo o território nacional.
Fechando a seção Dossiê, Fábia Marrucci se propõe, através de uma análise interpretativa do discurso da mídia impressa, verificar se a instituição da lei de Reforma Psiquiátrica, aprovada no Brasil em abril de 2001, produziu mudanças na visão da sociedade em relação aos portadores de transtorno mental.
Em seguida, a revista ECO-Pós traz uma entrevista com Antônio Fausto Neto. O pesquisador – autor de livros como O corpo falado: a doença e morte de Tancredo Neves nas revistas semanais brasileiras, Mortes em derrapagem: os casos Corona e Cazuza e Comunicação e mídia imprensa: estudo sobre Aids – conta como vê os entrecruzamentos entre comunicação e saúde e analisa as possibilidades dessa área de pesquisa.
Em seguida, na seção Perspectivas, a ECO-Pós aborda outras temáticas. Gil Horta Rodrigues Couto analisa o uso do telefone celular e seus impactos materiais na comunicação. Bárbara Nickel parte das projeções de Donna Haraway para discutir as potencialidades e limitações atuais da figura do ciborgue como fundadora de um mito político revolucionário. E Luiz Gustavo Xavier faz uma análise comparativa dos documentários Primárias (Primary) e Entreatos, mostrando como os protagonistas Kennedy e Lula utilizam-se do carisma como ferramenta estratégica no contexto das transformações da política na era da comunicação de massa.
Por fim, na seção Portfólio, José Luís Terrón e Ramon G. Sedo falam sobre o Observatório de Comunicação e Saúde, da Universidade Autônoma de Barcelona. Explicam sob quais princípios o observatorio foi criado, quais são seus objetivos e em que contexto institucional ele ganhou forma.

Ana Paula Goulart Ribeiro e Suzy dos Santos
editores

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