capa do livro

Gênero, Origem Social e Religião

Os estudantes de Serviço Social do Rio de Janeiro

Pedro Simões

No livro de Zaluar e Alvito sobre a história das favelas no Brasil e, em particular, no Rio de Janeiro, há um artigo de Mariz, Fernandes e Batista intitulado “Os Universitários da Favela” (1998). Neste artigo há a caracterização de uma aluna de Serviço Social: Marluce, 32 anos, kardecista, ex-militante do PT, criada na Rocinha, interessada pela profissão devido aos trabalhos comunitários e políticos realizados com grupos de mulheres. Será este o perfil típico dos alunos de Serviço Social?

Marluce, além de ser mulher, associa em sua vida religião e política, está diretamente vinculada ao movimento de mulheres, além de ter uma origem social que não deixa dúvidas: ela advém das camadas populares. Assim, gênero, religião e política estão presentes na caracterização do perfil desta aluna. Estas três características se somam a um olhar muito específico: ela quer lutar pelo direito das mulheres, em uma sociedade desigual e machista como a brasileira, estando inserida em um grupo social que mais diretamente sofre as consequên­cias negativas do processo de desigualdade de condições e oportunidades da sociedade brasileira.

Por outro lado, seu histórico e sua trajetória escolar, por mais difícil que tenha sido, lhe proporcionou chegar à universidade, possibilidade apenas atingida por 10% da população brasileira (Oliveira, 2005). Este ponto nos leva a questionar o potencial de mobilidade ascensional que os alunos de Serviço Social experimentam ao ingressarem na profissão. Este potencial está diretamente associado ao ponto de partida: quanto mais debaixo se parte, há também um espectro maior de possibilidades de ascensão.

A pesquisa monográfica desenvolvida por Vasconcelos (2006) mostra que, nas universidades públicas, como a UFRJ, os alunos de Serviço Social estão entre os cinco mais demandantes de bolsas de apoio para conseguirem permanecer na universidade (junto com os alunos de Letras, Enfermagem, Engenharia e Educação Física). Nas universidades privadas, a permanência de muitos alunos se deve, em grande parte, ao fato deles pagarem apenas parte das mensalidades, ou mesmo de terem isenção completa do pagamento. Em 1999, somente 3,6% dos alunos da PUC-RJ pagavam integralmente mensalidades e em 2006-2007 o percentual cai para 1,6%; ainda em 2007, na Unisuam 34% pagavam integralmente as mensalidades, na Veiga de Almeida o percentual sobe para 44,2%, chegando a 54% na Universidade Castelo Branco. Mesmo neste último caso, praticamente, metade dos alunos tem algum incentivo (12%) ou, de fato, não pagam a mensalidade (40%).

Isto significa que além de o curso de Serviço Social ser feminino e de estar associado historicamente aos valores religiosos e políticos, sem a possibilidade do ensino gratuito da profissão, fornecido inclusive pelas universidades privadas, os quadros profissionais seriam reduzidos drasticamente. A partir destas pistas, o Laboratório de Dados Sociais (Lab-10) da UFRJ realiza atividades de pesquisa sobre o perfil profissional dos assistentes sociais, buscando identificar em que medida as características distintivas deste grupo social, especialmente os valores de gênero, origem social e religião, são relevantes para a compreensão da prática assistencial por eles desenvolvidas.

Como parte do esforço efetuado neste sentido, é apresentado este produto parcial das pesquisas até aqui desenvolvidas. Nele, o leitor tem acesso à análise da pesquisa realizada com alunos de Serviço Social que estudam na cidade do Rio de Janeiro. Esta pesquisa cobriu um conjunto significativo de perguntas que englobavam dados pessoais dos alunos, dados da educação dos pais, informações sobre as condições de moradia dos alunos, a inserção dos mesmos no mercado de trabalho, além do consumo cultural dos discentes, a participação destes jovens em instituições político-sociais e religiosas e, finalmente, as razões porque os alunos escolheram o curso de Serviço Social (ver Anexo 1 - Questionário).

O material foi analisado a partir de um fio argumentativo: buscava-se identificar o que mais contribuía para a escolha da profissão: a baixa origem social dos alunos ou os valores – de gênero, origem social e religiosos – incorporados por eles, a partir de suas socializações em família e nos grupos sociais de pertencimento, antes de ingressarem no curso de Serviço Social. A comparação interna à profissão não contribui para que se possam verificar estas relações, de forma mais apurada, uma vez que elas são mais bem percebidas quando a comparação é realizada com outros grupos profissionais. Neste último caso é que se pode perceber, de fato, os elementos que distinguem as escolhas dos assistentes sociais pelo curso e pela profissão de outros cursos e profissões.

Mesmo assim, a preocupação principal era estabelecer uma base inicial para esta discussão, por meio da construção de um banco de dados que pudesse auxiliar na compreensão da importância da inserção dos alunos nos cursos de Serviço Social como instrumento de mobilidade social e de realização de valores “nobres” sejam eles de origem religiosa ou política. Outrossim, pela ausência de dados externos à profissão que pudessem ser comparados com os dados coletados com os assistentes sociais (ver Nota Metodológica), buscou-se realizar uma comparação interna à profissão, verificando as distinções existentes, a partir de diferentes tipos de cursos.

Os cursos de Serviço Social no Rio de Janeiro comportam cinco tipos principais, conjugando turnos distintos (manhã, vespertino e noite), com a natureza da instituição (pública ou privada). As cinco combinações contempladas (público diurno, público noturno, privado diurno, privado vespertino e privado noturno) só não incluíram alunos de universidades públicas que estudam à tarde, pois esta modalidade de curso não é oferecida na cidade do Rio de Janeiro, na época da pesquisa. Todos os demais tipos de cursos foram, portanto, pesquisados. A ênfase não estava na instituição em si, mas na relação entre os perfis de alunos e os tipos de cursos. De maneira mais clara, partiu-se do suposto de que os alunos que estudam à noite em um curso privado têm características muito diferentes de alunos que ingressam em um curso público para estudar de manhã. As distinções podem ser tanto das características pessoais dos alunos quanto das suas motivações, sua inserção no mercado, sua relação com a família, etc.

O que está em questão, além das distinções de motivações para ingresso no curso é a possibilidade que a diversidade de tipos de curso oferece para que alunos com perfis bastante específicos possam ingressar na universidade e concluírem sua graduação. Desta forma, valoriza-se tanto os cursos públicos quanto os privados, tanto os diurnos, quanto os noturnos, tanto os oferecidos na zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade, quanto os oferecidos na zona oeste ou na zona norte. Cada uma destas novas possibilidades de curso incorpora tipos diferentes de alunos, aumentando as oportunidades de estudo, além de significarem um incremento no número de vagas.

Em 2005, havia praticamente quatro cursos privados (175) para cada curso público (44) no país, além de haver seis vezes mais vagas nos primeiros (12.955) do que nos segundos (2.518). Esta diferença no número de cursos e no número de vagas ocorreu decorrente do enorme crescimento dos cursos privados no país, após 1995. No período 1995-2005 foram abertos 8,5 cursos privados (127) para cada público (15) no Brasil, dobrando o número de cursos total existente. Estes dados evidenciam o crescimento do setor de ensino universitário privado no país, a partir do governo Fernando Henrique Cardoso (Durham, 2005).

Independente da qualidade do ensino em si mesma, e sem entrar neste mérito, o contato de diferentes tipos de alunos com o universo acadêmico, público ou privado, já é, por si só, um ganho social inestimável. Além disso, o aumento da base de recrutamento só pode ser visto como algo positivo para qualquer profissão. Ela traz um aumento de competitividade interna e, como consequên­cia, exigências maiores para contratação, mais concorrência nos concursos, maior oferta de cursos de capacitação, tudo isso, gera a formação de profissionais cada vez mais qualificados para o exercício profissional.

Este estudo busca, assim, mostrar as nuances e distinções entre os diversos tipos de alunos de Serviço Social. Como parâmetro para análise dos dados, são utilizadas informações sistematizadas também pelo Lab-10 a partir das PNADs (Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios, realizadas pelo IBGE). Foram utilizados dados tanto dos assistentes sociais quanto de outras profissões (engenheiros, psicólogos e pedagogos) de vários anos, a depender do tipo de dado a ser analisado (ver Nota Metodológica).

Em anexo, encontra-se o questionário de base da pesquisa, uma nota metodológica em que se explica a forma como os dados foram sistematizados e analisados e uma listagem com os percentuais de todas as variáveis do questionário separadas por tipo de curso e instituição. Embora todo o texto tenha privilegiado os dados por tipo de curso, optou-se por apresentar também as diferenças por tipo de instituição, uma vez que, outras pesquisas podem utilizar destes dados para explorar questões relativas a somente um ou outro curso/instituição.

A análise estatística realizada foi além do que está apresentado nas listagens em anexo. Por esta forma de tratamento dos dados não ser usual entre os assistentes sociais, o texto não contempla a apresentação dos modelos de regressão utilizados, tampouco os resultados de significância dos testes estatísticos (Qui-Quadrado, ANova, Análise Fatorial, etc.), buscando, apenas, ressaltar o significado final dos resultados dos testes. Com isso, o intuito era deixar o texto mais fluido, mais fácil de ser lido, evitando que o argumento se perdesse no excesso de detalhes das demonstrações estatísticas. No entanto, sempre que algum cálculo estatístico foi realizado, há a sinalização dos mesmos em notas de rodapé ou entre parêntesis, para indicar que os comentários realizados são derivados do método de análise utilizado.

A primeira parte do trabalho é composta por dois capítulos: o primeiro trata da relevância do estudo dos valores na profissão de Serviço Social, tendo como contraponto principal se estes são um fim ou um meio do exercício profissional. Independente se a resposta apontar para um ou outro, ou para os dois, demonstra-se assim a importância que os mesmos têm para a compreensão do que é o fazer profissional; o segundo, apresenta quem são os assistentes sociais que estão hoje na profissão, tanto os profissionais (em âmbito nacional) quanto os alunos (em âmbito local – Rio de Janeiro), com dados recentes da composição de sexo, idade, raça/cor e estado civil dos assistentes sociais.

A segunda parte busca identificar até que ponto o curso de Serviço Social é, de fato, um fator de mobilidade social para aqueles que nele ingressam. Para isso, são estudados a origem social dos alunos, em especial, a educação dos pais dos alunos e dos profissionais; a necessidade dos primeiros, de inserção no mercado, para composição da renda familiar; e dados da própria família dos alunos, enfocando, a renda familiar, os bens e o local de moradia. A partir do conjunto destas informações será possível identificar a relevância estratégica de ingresso no curso para assegurar a permanência das famílias em um determinado status social ou mesmo de conseguir atingir um status superior.

Na terceira parte do trabalho são apresentados os dados sobre a participação social dos alunos. Estas foram divididas em “acesso à cultura/informação”; “político-social” e “religiosa”. Assim, pode-se perceber a forma como os alunos se informam e de que instituições sociais eles mais participam, ou seja, mais se sentem identificados. Estas informações, junto com a identificação da origem social dos discentes, permite-nos perceber a base de valores de que os alunos são portadores. Por último, mas não menos importante, são estudados as formas de escolha e motivação para o ingresso no curso de Serviço Social. Neste caso, foi possível perceber se os alunos conheciam previamente a profissão, se escolheram pela carreira, como opção preferencial no vestibular e quais os seus motivadores principais.

Todas as análises realizadas visavam identificar que tipos de alunos ingressavam nos diferentes tipos de curso, quanto perceber a predominância de determinados tipos, buscando formar uma imagem mais homogênea dos alunos de Serviço Social. Assim, operou-se tanto na perspectiva da heterogeneidade e das distinções internas do perfil discente, quanto na perspectiva oposta, de perceber seus principais componentes.

Pedro Simões

Veja também

capa do livro

Assistentes Sociais no Brasil

Um estudo a partir das PNADs

Pedro Simões

capa do livro

O Serviço Social no Brasil

Os fundamentos de sua imagem social e da autoimagem de seus agentes

Fátima Grave Ortiz

capa do livro

Saúde, Previdência e Assistência Social

Desafios e Propostas Estratégicas

Fátima Bayma de Oliveira e Istvan Karoly Kasznar (org.)

capa do livro

Família de negros

Entre a pobreza e a herança cultural

Sergio Mauricio Costa da Silva Pinto

capa do livro

Como se fosse da família

a relação (in)tensa entre mães e babás

Liane Maria Braga da Silveira

capa do livro

O fazer e o desfazer dos direitos

Experiências etnográficas sobre política, administração e moralidades

Adriana Vianna (org.)