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Revista Inteligência Empresarial - n.01

Outubro de 1999

Centro de Referência em Inteligência Empresarial da Coppe/UFRJ

Como se explica o fato de a Microsoft ter um valor em bolsa 10 vezes maior que o contabilizado em seu balanço patrimonial? Por que a Amazon Books, empresa que desde a criação só teve prejuízos, continua a ser valorizada no mercado acionário? Para alguns, a resposta a essas questões está nas profundas mudanças que estamos vivendo, um momento histórico caracterizado pela transição de uma sociedade tipicamente industrial para uma sociedade do conhecimento.

Na passagem da sociedade agrícola para a sociedade industrial – no início do século XX – o Brasil era um grande produtor e exportador de café e assim se manteve por longo tempo, entrando tardiamente na rota da industrialização; agora, na nova transição, parece que se contenta com o papel de mero produtor/exportador de produtos industriais e importador de produtos intensivos em conhecimento.

Será que estamos, mais uma vez, condenados a ocupar a função de coadjuvantes no cenário mundial?

A revista Inteligência Empresarial surge com a missão de apresentar e debater caminhos que permitam a inserção competitiva do Brasil na nova sociedade. Nessa nova economia, o eixo da riqueza e do desenvolvimento se desloca de setores industriais tradicionais – intensivos em mão-de-obra, matéria-prima e/ou capital – para setores cujos produtos, processos e serviços são intensivos em tecnologia e conhecimento. Nos países desenvolvidos, a utilização das tecnologias da informação, do conhecimento e das inovações como instrumento para obtenção de vantagens competitivas já permeia quase todos os setores, inclusive os tradicionais, como a agricultura e as indústrias de bens de consumo e de capital. A competição é cada vez mais baseada na capacidade de transformar informação em conhecimento e este, em decisões e ações de negócio. O valor dos produtos e serviços nessa nova sociedade depende cada vez mais do percentual de inovação, tecnologia e inteligência a eles incorporados.

Tais mudanças têm profundo impacto na economia do país e na vida de milhões de brasileiros. Podem configurar-se como ameaça, se nos acomodarmos ao papel de simples consumidores de produtos intensivos em conhecimento, ou como oportunidade, se nos posicionarmos para aproveitar os novos espaços abertos pela desestabilização do sistema vigente.

Momentos como este, de mudança de paradigmas, trazem muita perplexidade: os velhos conceitos já não explicam a realidade e os novos ainda não estão maduros o bastante para se tornarem o novo padrão. A única certeza é de que precisamos de uma nova teoria que reconheça o conhecimento como o principal fator de agregação de valor na nossa sociedade. Os cursos e as teorias tradicionais de administração só conseguem dar conta da gestão dos fatores clássicos de produção: terra, capital e trabalho. Sabemos como medir, avaliar e fazer o balanço patrimonial de uma empresa, mas agora necessitamos de metodologias e critérios que nos permitam medir, avaliar e gerenciar o capital intelectual e os ativos intangíveis das organizações. Ou seja, que nos permitam gerir o conhecimento.

Devemos reconhecer, porém, que, embora condição necessária, a gestão do conhecimento não é suficiente para garantir a competitividade das organizações. Há que se aliar a capacidade de empreender e a capacidade de inovar. Na realidade, se a geração e a alavancagem do conhecimento estão na base da competitividade na nova sociedade, é a capacidade de inovação que surge no topo como a fonte definitiva de vantagem competitiva.

Não são poucos os estudos em gestão da inovação, na Europa e nos Estados Unidos, que apontam a falta de integração entre pesquisa & desenvolvimento (P&D), gestão de projeto, produção e marketing como o principal motivo do fracasso dos projetos destinados a incentivar o desenvolvimento tecnológico nesses países.

O sucesso com a inovação depende de muitos outros fatores além de P&D, como, por exemplo: relacionamentos (redes) entre os diversos atores do sistema; capacitação; e integração do design (projeto) com o desenvolvimento, a produção e o marketing.

O modelo que chamamos de inteligência empresarial, e que dá nome a esta revista, inclui, além da gestão integrada do conhecimento e da capacidade de inovação, um ambiente que estimule o empreendedorismo.

Ambiente da Inteligência Empresarial
No Brasil temos todos os elementos deste tripé: organizações e profissionais competentes, um sistema nacional de inovação e empreendedores. Por que então estamos geralmente fora da competição pelos negócios intensivos em inovação e de alto crescimento e valor agregado? Por que estamos sempre “uma onda defasados”? Por que uma grande parcela do empresariado julga que os setores de alta tecnologia e conhecimento “não são para a gente” e que devemos continuar a ser produtores/exportadores de produtos industriais?

Esta revista propõe-se a debater essas questões e participar da busca de soluções e iniciativas concretas. Nosso público são os empresários, acadêmicos e formuladores de políticas que buscam um tratamento aprofundado, mas sem pedantismo intelectual, na abordagem dessas questões. Julgamos que profundidade e clareza de linguagem, além de não serem termos contraditórios, são elementos altamente sinergéticos para a objetividade do texto.

O compromisso com a clareza e a inserção no dia-a-dia das organizações se reflete na estrutura da revista. Em cada número de Inteligência Empresarial, o leitor encontrará um artigo-âncora, estudos de caso (internacionais e, principalmente, brasileiros) e uma seleção de informações indispensáveis a todas as empresas e organizações que pretendem se inserir de forma competitiva na sociedade global do conhecimento.

Neste primeiro número, trazemos um relatório do Banco Mundial sobre a nova economia do conhecimento, com os comentários de Vania Araujo e Isa Freire sobre os impactos no Brasil dos temas levantados pelo relatório. Apresentamos também o texto da palestra proferida no Rio de Janeiro pelo sociólogo italiano Domenico de Masi, um dos mais importantes pensadores da sociedade pós-industrial. Encerrando esta edição, damos a programação completa da Semana do Conhecimento.

No próximo número o artigo-âncora será um documento do governo norte-americano sobre o comércio eletrônico e um relato da Embraer e do Shoptime sobre sua atuação na economia digital.

Nosso leitor pode ter a certeza de que, lendo Inteligência Empresarial, estará recebendo uma seleção de documentos, artigos e informações tratados pelos maiores especialistas brasileiros e internacionais em gestão do conhecimento, inovação e empreendedorismo.

Até a próxima!

Os Editores

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