capa do livro

Imaginários de Cinema

Denise Trindade (org.)

O curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá realizou, no mês de outubro de 2009, palestras seguidas de debates com professores e alunos do curso e de outras instituições do Rio de Janeiro. Nelas foram levantadas questões sobre o cinema e suas relações com os diversos campos do pensamento e da cultura.

O encontro teve como objetivo verificar distintas abordagens que as imagens consequentes das extensões temporais próprias do cinema realizam, assim como problematizar as transformações decorrentes deste meio na própria invenção da cultura. Seu viés principal foi pensar, através de filmes e imagens cinematográficas, consequências perceptivas e teóricas em vários campos do conhecimento, tentando compreender sua potência na produção de planos imaginários.

Em cinco mesas distribuídas durante dois dias (manhã e noite), os palestrantes abordaram questões sobre o cinema e suas implicações atuais no campo da pesquisa da imagem. As mesas se organizaram sobre temas diversos, como as relações de extensões de tempo e memória, que podemos retirar no ensaio “A memória em sua relação com a história, a literatura e o cinema”, de Elis Crokidakis Castro, o qual, de modo amplo, aborda a memória através de um debate intenso entre historiadores e teóricos, averiguando suas decorrências nas produções literárias e cinematográficas e encontrando eco no filme Narradores de Javé, de Eliane Caffé. Relacionada a este tema, a apresentação de Denise Trindade, “A memória em planos fixos: o fotográfico no filme A Cicatriz (Blizna) de Kieslowski”, desenvolve uma reflexão no campo próprio da teoria da imagem sobre o fotográfico e suas produções de sentido no campo fílmico, onde a imagem, como uma cicatriz, aparece em sua propriedade de despertar lembranças guardadas na memória que intervêm no imaginário do espaço e do tempo, produzindo narrativas através de suas interrupções.

Evidenciando a nervosidade da obra de arte, o cinema inglês dos anos 1980 é abordado por Marcelo Augusto Teixeira em “A necrospectiva no cinema inglês da década de 1980: the-state-of-nation-films e a estratificação do excesso formal na reconsideração da sociedade inglesa”, no qual o autor verifica reações da crítica conservadora britânica diante dos filmes de Derek Jarman, que fazem sangrar as imagens, ampliando alegoricamente o campo onírico. Tal ação é perseguida por Elizabeth Motta Jacob em “Construindo visualidades: simbioses e fraturas”, que constata nos símbolos presentes na direção de arte do filme Cara a Cara, de Júlio Bressane, as diferenças urbanas de classe traduzidas por trajes e objetos, fazendo com que a cidade e a subjetividade dos personagens através de suas vestes se caracterizem como uma expressão da sociedade brasileira. Filme de Amor, também de Bressane, é abordado por Joaquim Paulo Delphim em “A pintura e o fotográfico no cinema: instantes e afetos”, no qual ele aproxima pintura e fotografia de cena, resultando na imagem-luz que é produzida pela relação entre sombras e fantasmas.

O campo dos afetos atravessa também o documentário, que adquire no artigo “Documentário, realidade e criação: uma resposta berg­soniana”, de Luiz Augusto Rezende Filho, um lugar para muito além do real, e as imagens “documentadas” se apresentam como virtua­lidades que, por sua vez, se atualizam para restituir à “realidade” sua dimensão virtual. Por outro ponto de vista, Eliana Monteiro destaca, em “Imagens de vigilância: um estranhamento nas telas do cinema e da TV”, a importância das imagens de vigilância exibidas nas diversas mídias, permitindo pensar diferenças em seu uso. Para isso, a autora analisa imagens captadas por sistemas de segurança que possuem angulações preestabelecidas e aquelas das “câmeras escondidas” que, por sua movimentação, são capazes de construir narrativas. O relato de uma experiência realizada por Leonardo Miranda na Central Única de Favelas (Cufa), sobre os critérios de escolha do filme a ser produzido no final de um curso, é problematizado no artigo “A construção do real: cortes e recortes nos documentários”. O curta Até o Fim, que transita entre a ficção e realidade, foi escolhido e realizado, ganhando o prêmio do júri técnico no festival Cine Cufa de 2009.

Novas configurações artísticas aparecem no texto “Entre imagem e memória: o cinearquivamento do mundo ou entre o cinema ao vivo e as imagens da rede”, de Wilson Oliveira Filho, ao abordar o live cinema em suas aproximações com a memória através do uso de arquivos de imagens e sons que, utilizados pelos novos arqueólogos, os VJ’s, produzem outras cartografias. Mapeando o processo de montagem das imagens em “Montando imagens de arquivos: a memória do cinema latino-americano em Rocha que voa”, Patrícia Furtado Mendes Machado aponta como as imagens retiradas de seu contexto de origem adquirem outros sentidos, inclusive o de produzir memórias.

A problematização de transformações decorrentes do cinema no campo da cultura, como no imaginário de Hollywood ou no próprio melodrama, aparecem nos textos “Elizabeth Taylor contra os mísseis de Cuba: encenação pública da vida privada e moldagem ideo­lógica através do espetáculo”, de Flávio Di Cola, e “Tudo o que o melodrama permite”, de Rômulo Cyriaco. O melodrama é visto por Rômulo através dos fragmentos estéticos presentes nos filmes de Douglas Sirk, onde a câmera, ao invés de sofrer com as emoções do roteiro, se distancia deste e, de maneira “quase fria”, deixa para o espectador a possibilidade de escolha no acompanhamento do filme em suas invenções estéticas. Para Di Cola, a encenação de amor e política produzida em Hollywood e espetacularizada pela mídia durante a realização do filme Cleópatra criou o que ele chama de “efeito Cleópatra”, que se estende até hoje na convivência entre política, entretenimento e crises mundiais sob as luzes da ribalta.

Acreditamos que a publicação deste livro contribuirá com os estudos acadêmicos da área do Cinema, que vem se desenvolvendo intensivamente na cidade do Rio de Janeiro. O curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá tem presença constante em festivais e também no mercado de trabalho. Essa atividade teve como propósito principal realizar o primeiro de outros encontros que contribuirão para a solidificação do bacharelado do curso, estabelecendo um caráter de pesquisa necessário à graduação e permitindo aos professores apresentarem suas pesquisas pessoais. A troca acadêmica faz-se necessária para crescimento do curso e amplia o campo do pensamento sobre cinema no Rio de Janeiro.

Denise Trindade

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