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Revista Inteligência Empresarial - n.35

Porto Maravilha e a Pequena África

Centro de Referência em Inteligência Empresarial da Coppe/UFRJ

Vão acabar com a Praça Onze, / Não vai haver mais escola de samba, não vai,(...) / Guardai os vossos pandeiros, guardai / Porque a Escola de Samba não sai/ (...)/ E algum dia nova Praça nós teremos / E teu passado cantaremos” (samba de Grande Otelo e Herivelto Martins)

A letra que serve de epígrafe é de um dos mais conhecidos sambas do Rio de Janeiro. Ela faz parte do livro Bom dia, manhã, que tive a honra de organizar para o Grande Otelo, lançado no ano de 1993 pela editora Topbooks com prefácios assinados por Jorge Amado e Antônio Olinto. Tudo realizado um pouquinho antes do falecimento deste que foi um dos maiores atores do cinema e do teatro brasileiro. Em sua bagagem de mão, no avião onde faleceu em Paris, Otelo guardava vários exemplares dessa discreta coletânea de poesias. Para ele, a canção aqui citada tinha um especial significado: “Luiz Carlos, eu que tive a ideia de não deixar passar em branco a destruição do berço do samba em 1941, quando a Prefeitura anunciou que seria realizada a obra da Avenida Presidente Vargas. Por que tinham que destruir a Praça Onze? Para modernizar ou para limpar a cidade das nossas raízes culturais? As escolas de samba nasceram naquela praça, ela não merecia ser destruída”.

Hoje, nos antigos mapas da cidade do Rio de Janeiro, podemos identificar a centralidade da Praça Onze. Local para onde fluíam os caminhos, trilhas e atalhos da Pequena África, espaço urbano que abraçava os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo; o Mangue (zona de prostituição), hoje Cidade Nova, e Estácio; e o conjunto do casario comercial da atual Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (SAARA).

Trago a epígrafe porque este número da revista Inteligência Empresarial foi idealizado para – de certa maneira – “cantar o passado” da Praça Onze, o centro geográfico da Pequena África, fazendo valer a profecia do Otelo.

Entendo que o principal propósito do projeto Porto Maravilha é o de transformar dois séculos de decadência em progresso: retirar o Porto do Rio do mapa que aponta as áreas abandonadas, sujas e perigosas na Cidade Maravilhosa. O projeto veio para despejar a decadência do Porto do Rio.

Dentro de alguns anos – prometem poder público e iniciativa privada –, as ruas de hoje, nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, que têm péssima infraestrutura (esgoto; abastecimento de água; calçamento; iluminação; sinalização; segurança, etc.) estarão no mesmo padrão de uma Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca ou dos portos de Barcelona, Madero ou Baltimore.

Abaixo dos morros da Conceição, Livramento, Pinto, Providência e São Diogo surgirão vias expressas e edifícios com selo verde. Equipamentos urbanos de primeiro mundo, adequados à realidade ambiental global.

Mas foi neste chão que nasceu a versão carioca do Samba, na Casa da Tia Ciata; nasceu a primeira Escola de Samba, a Deixa Falar de Ismael Silva; nasceu a primeira favela brasileira, no Morro da Providência; nasceu o escritor Machado de Assis, no Morro do Livramento; e nasceu o compositor Ernesto Nazareth, no Morro do Pinto, antigo Morro do Nheco. Pelo Porto do Valongo, na antiga Praia da Gamboa, passaram centenas de milhares de escravos que ali desembarcavam dos navios negreiros.

Quem sabe não foi esta forte matriz cultural que colaborou para que os armazéns do Porto do Rio dessem abrigo – faz 30 anos – a 64 escolas de samba? Agremiações de todos os grupos, desde o especial, passando pelos A, B, C, D e E, inclusive pelas 17 escolas de samba mirins. Entidades que realizam os desfiles carnavalescos no Sambódromo e na Passarela do Samba da Intendente Magalhães, em Madureira. Desfiles de mais de 120 mil figurantes!

Foi nos armazéns abandonados do Porto do Rio, muito antes da construção da Cidade do Samba, que surgiu o Carnaval Espetáculo. Sem essa infraestrutura para construção de carros alegóricos, fantasias e administração, a Passarela do Samba, na Marquês de Sapucaí, não teria como se transformar na maior festa popular do mundo.

Ao lado do patrimônio histórico tombado, como a Pedra do Sal, local onde se reuniam sambistas da casa da Tia Ciata (demolida) no início do século XX, esses armazéns ocupados pelas escolas de samba têm potencial para abraçar a vida cultural das futuras ruas e praças do Porto Maravilha.

Os gestores do projeto em andamento no Porto do Rio não podem deixar de explorar essa matriz cultural que gera milhares de empregos e muita renda, através da movimentação de bilhões de reais. Os ativos imateriais intelectuais vivos e vibrantes devem ser contabilizados e valorizados.

A Pequena África é um polo de desenvolvimento e pesquisa social econômico, tecnológico e cultural e, como tal, pode ser tratado pelo poder público e empresários. O Porto Maravilha ganha potência ao absorver essa identidade local.

Luiz Carlos Prestes Filho
Autor do livro Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval e coordenador executivo do Núcleo de Estudos da Economia da Cultura.

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