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Revista Inteligência Empresarial - n.36

Cultura, Planejamento e Gestão

Centro de Referência em Inteligência Empresarial da Coppe/UFRJ

Um rei sonhou que encontrara sete jovens que caminhavam por uma estrada. Vencidas pela fadiga e pela sede, as jovens pararam sob o sol causticante. Surgiu uma princesa trazendo-lhes grande cântaro de água pura e fresca. Esta princesa saciou a sede que torturava as jovens. Ao despertar o rei consultou a significação daquela cena. Respondeu o astrólogo: “Senhor! As sete jovens eram: a Pintura, a Música, a Escultura, a Arquitetura, a Retórica, a Dialética e a Filosofia. A princesa que as socorreu simbolizava a Matemática. Sem auxílio da Matemática as artes não podem progredir e todas as outras ciências perecem.” Malba Tahan1
O documento “Avançar na Construção de um Espaço Compartilhado”, da Organização dos Estados Ibero-americanos2 (OEI), no seu capítulo 4, discorre sobre a necessidade de fazer avançar os intercâmbios de bens e serviços culturais entre os países latino-americanos. Segundo as estatísticas da UNESCO3, a região da América do Sul e Caribe representa 3% da circulação mundial de bens e serviços culturais. No informe da UNCTAD4/PNUD5, lembra a OEI, são poucos países da região que entram na lista daqueles que têm bons índices de exportação setorial.
Estas constatações, com as quais o Ministério do Trabalho e Emprego concorda, foram feitas para incentivar ações dos ministros de estado da região na criação de projetos e programas que colaborem para que os produtos e serviços da indústria cultural latino-americana rompam suas fronteiras nacionais, trazendo resultados econômicos ou financeiros para as respectivas Balanças de Pagamentos6; gerando emprego e renda seto­rial. Neste sentido, as atividades do Ministério da Cultura, através da Secretaria Nacional de Economia Criativa, tem contribuído ativamente para a construção de uma agenda estruturante para os próximos anos.
Entendemos ser o intercâmbio de bens e serviços culturais uma atividade estratégica quando pensamos a Economia da Cultura o núcleo forte da Economia Criativa. Por tanto, temos de desenhar a macroestrutura econômica do setor e apontar para onde podemos crescer dentro das regras vigentes do mercado nacional e mundial. Devemos reestruturar o planejamento tradicional, voltado somente para obtenção de resultados no mercado interno, e qualificar a gestão profissional através de parâmetros que nos garantam qualidade, preço e competitividade. Sendo assim, o MTE já está desenvolvendo o Plano Nacional de Qualificação (PlanSeQ7) do Carnaval.
Os criadores e produtores culturais dos países latino-americanos, ao identificar que seus consumidores estão dentro das fronteiras nacionais, percebem que formamos um conjunto de ilhas que não realizam trocas comerciais, portanto criam e produzem produtos e serviços que não ameaçam os monopólios mundiais do audiovisual, editorial, musical ou de espetáculos.
A legislação de cada país é um entrave para o mundo ibero-americano, cria barreiras, muitas vezes intransponíveis, para construção de pontes que favoreçam a criação de um mercado cultural comum, até mesmo entre aqueles parceiros que compõem o MERCOSUL. Questão que já está sendo estudada no Congresso Nacional.
Temos que saber melhorar:
1.    Os sistemas de troca de informações sobre a oferta de produtos e serviços culturais.
2.    O conhecimento das necessidades e demandas setoriais.
3.    Os programas para articulação da mobilidade da produção cultural existente e daqueles agentes que compõem a bolsa do mercado no futuro.
Nas entrelinhas do documento da OEI, citado no início deste texto, verificamos que existe uma crítica aos projetos de promoção cultural. Pois, o crescimento econômico nacional da última década permite aos brasileiros comprarem produtos culturais colombianos, chilenos, argentinos ou mexicanos. Pode mais ainda, oferecer uma oportunidade para venda de produtos culturais brasileiros nos mercados dos países citados. Infelizmente, esta não é a realidade. Quase não exportamos nossa produção simbólica e estética; em poucas situações rompemos as nossas fronteiras nacionais, avançando sobre os territórios marcados pela presença das multinacionais. O Brasil continua, essencialmente, exportador de commodities, o “Celeiro do Mundo”.
As próximas gerações têm a missão de fazer circular a cultura nacional pelo menos nos mercados latino-americano, africano e asiático. O que será possível somente através do planejamento de longo prazo; definição de metas; e implantação de gestão orientada para resultados comerciais de curto prazo. Sem empresas transnacionais fortes; legislação flexível e atualizada; observatórios qualificados das atividades comerciais culturais; e foco nos espaços disponíveis no mercado mundial, não avançaremos. A Cultura do Brasil tem de se fazer presente nos países da Comunidade Econômica Europeia, Estados Unidos e Canadá.
Assim como a matemática é invisível para a grande massa de apreciadores da pintura, música, escultura, arquitetura, retórica, dialética e a filosofia, o tema Gestão e Planejamento, para os agentes da Economia da Cultura do Brasil, também o é.
Para o Ministério do Trabalho e Emprego este número da revista Inteligência Empresarial é de suma importância. Os textos aqui publicados abordam questões estratégicas: Gestão de Megaeventos (relacionado diretamente com a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro); Identidade de Arranjos Produtivos Locais (APLs) de Cultura e Turismo; Propriedade Intelectual; e os Planejamentos Estratégicos de Associações representativas do Carnaval Carioca. São trabalhos realizados entre os anos de 2011 e 2012 que demonstram as dificuldades, os desafios e as oportunidades existentes para os mais diferentes segmentos da Economia da Cultura.
O tema Escola de Carnaval é de especial importância para o MTE. Este centro de formação acadêmica está de acordo com as nossas diretrizes que são as de formar e qualificar os trabalhadores e os gestores para o maior espetáculo popular do mundo. Apoiamos este projeto e desejamos colaborar para sua implantação.
Boa leitura!

Notas
1. Inspirado livremente no livro O Homem que Calculava, de Malba Tahan, páginas 82-83, Editora Record, 2012, Rio de Janeiro.
2. OEI, Organização dos Estados Ibero-americanos, instituição criada em 1945 pelos ministros de Educação e Cultura dos Estados Ibero-americanos, consultas: www.oei.es
3. UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, fundada em 1945, mas originou-se da comissão criada em 1921, para o estudo da Educação e da Cultura, pela Liga das Nações, consultas www.unesco.org ou www.unesco.org.br.
4. UNCTAD, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, foi estabelecida em 1964, para atender às reclamações dos países em desenvolvimento no tema de exportação, consultas: www.unctad.org
5. PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, consultas: www.pnud.org.br
6. Nos relatórios do Balanço de Pagamentos do Brasil, editados pelo Banco Central do Brasil, site http://www.bcb.gov.br/SERIEBALPAG, não encontramos informações consolidadas sobre a comercialização de produtos e serviços culturais de forma explícita.
7. Os PlanSeQ’s são parte do Plano Nacional de Qualificação (PNQ) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e caracterizam-se como espaços de integração das políticas de desenvolvimento, inclusão social e trabalho (intermediação de mão de obra, geração de trabalho e renda e economia solidária), e de qualificação profissional, em articulação direta com oportunidades concretas de inserção do trabalhador, ou trabalhadora, no mundo do trabalho.

Brizola Neto
Ministro do Trabalho e Emprego

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