capa do livro

Trabalho invisível, profissão do lar

A queda do matriarcado e a desvalorização do trabalho feminino

Márcia Neves

A primeira vez que entrei em contato com a expressão “do lar” foi nos idos de 1995, quando tinha acabado de chegar ao Brasil. Por circunstâncias que não vêm ao caso mencionar, caiu nas minhas mãos um documento cartorial onde uma pessoa física era qualificada desta forma: do lar. Como na época eu não falava português direito (e tem quem diga que ainda hoje não falo), perguntei para uns colegas o que esta expressão significava e recebi a seguinte resposta: é a mulher que fica em casa. Não sei ao certo se havia nessa definição uma carga de preconceito por parte dos meus colegas, mas na minha cabeça formou-se a imagem de uma mulher que fica em casa de dondoca, sem fazer nada, rodeada de um séquito de empregadas que tomam conta dos afazeres da residência.

Meus pais sempre trabalharam fora de casa, e sempre tivemos empregada doméstica duas vezes por semana para fazer a limpeza e passar a roupa. Havia certa divisão de tarefas entre os membros da família, pois meu pai era o cozinheiro oficial e a minha irmã tomava conta de lavar a roupa da família. Mas, a rigor, eu só comecei a assimilar as reais implicações do trabalho no lar quando comecei a morar sozinho (às vezes, dividindo apartamento com outros colegas). Tive que assumir a responsabilidade de fazer a minha comida e lavar a minha louça (e às vezes, de tabela, a de meus colegas de apartamento), lavar a minha roupa, limpar a casa, pagar as contas. Coisas que de fato sempre detestei e que, sendo um simples bolsista de pós-graduação, obviamente não tinha como terceirizar (a menos que optasse por passar fome).

Talvez seja por isso que, quando casei com a Márcia, autora deste livro, assumir a divisão de tarefas na casa não tenha sido tão traumático. Mas ainda considero o trabalho doméstico uma atividade chata e ingrata, que se torna tanto mais pesada quanto maior é o espaço em que você mora. E só quem já se envolveu nessa experiência consegue dar valor e apreciar o esforço que significa manter um lar em ordem sem a ajuda de empregados (e, às vezes, até com ajuda deles também).

Lamentavelmente, uma parcela importante da sociedade menospreza ou desconsidera a condição do lar, em parte pelos estereótipos que a mídia apresenta (muito semelhantes à imagem que eu tive 20 anos atrás), em parte porque em uma sociedade onde a mulher vem ganhando cada vez mais espaço no mercado a existência do trabalho doméstico é visto como algo inferior.

Este livro aborda estas e outras questões, visando dar subsídios para entender como e por que existe um preconceito tão arraigado na sociedade atual sobre o trabalho invisível da mulher do lar. Começando com uma perspectiva histórica, e misturando com alguns tintes autobiográficos, o livro usa uma linguagem acessível que permite uma leitura rápida e descontraída, apresentando diversos dados estatísticos para reforçar os argumentos. O texto busca assim apresentar uma realidade que nos leve a refletir e a tentar mudar a nossa perspectiva, muitas vezes preconceituosa, sobre as donas (e donos) de casa.

Fernando Roig

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