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Ares do Brasil

Celso Furtado, o lugar do desenvolvimento

Andreia Ribeiro Ayres

O modo de inserção da economia brasileira na economia mundial evidenciou especificidades em nossa formação econômica e social que se tornaram elementos rígidos de nossa estrutura, que caracterizavam o “subdesenvolvimento”. Ainda que, desde a década de 1950, uma vertente do pensamento econômico brasileiro, e dentro dela Celso Furtado, propusesse a reflexão sobre as possibilidades de um caminho próprio a ser trilhado para superar a situação de subdesenvolvimento, a trajetória histórica das nações industrializadas era apresentada pelo pensamento hegemônico das teorias econômicas do desenvolvimento como o “modelo único” a ser seguido, uma espécie de espelho do futuro das economias periféricas.

Os avanços da industrialização brasileira, apoiada em forte participação estatal, não conseguiram efetivar um desenvolvimento social homogêneo. Ao crescimento econômico associara-se a desigualdade social e a concentração de renda, situação agravada com a intensificação do processo de transnacionalização e desregulamentação da economia. A unidimensionalização de imperativos vinculados à lógica do mercado – eficiência, produtividade, competitividade – desconstruiu as estratégias desenvolvimentistas no mundo dito globalizado, fazendo tarefa urgente se repensar as estratégicas de desenvolvimento, incorporando uma reflexão interdisciplinar e focada na concretude e singularidade dos “lugares”, superando o dilema da compatibilização entre globalização e diversidade cultural.

A prevalência de um modelo único e unipolar se vincula aos efeitos perversos da transposição de modelos, do mimetismo cultural, da modernização mimética e dos limites da abordagem puramente economicista. Foi desde essa premissa que buscamos resgatar o tema abordado por Guerreiro Ramos no livro Redução sociológica: a autonomia epistemológica. Trata-se de abrir a possibilidade para uma reflexão autêntica e criativa capaz de lidar com a diversidade de realidades situacionalmente concretas e propor caminhos alternativos para elaboração de um projeto próprio de desenvolvimento.

A Redução sociológica é fruto da discussão capitaneada por Guerreiro Ramos, na década de 1950, em torno da fundação de uma sociologia brasileira. Sua proposta pode ser entendida como uma crítica à cega e automática transposição de “teorias importadas” inadequadas para compreensão das especificidades da sociedade brasileira. Ela parte de uma atitude metódica que pauta a elaboração teórica a partir do enraizamento no próprio contexto situacional da vida vivida das diversas identidades culturais específicas.

Guerreiro Ramos procurava contribuir para formulação de um projeto próprio de desenvolvimento nacional por meio da fundação de uma “sociologia operativa” – intencional e funcional. Para ele, o estabelecimento de relações vinculantes e estreitas entre teoria e prática era o caminho para se efetivar um desenvolvimento autêntico. Cabia, portanto, considerar a realidade econômica e social em comprometimento com as comunidades e em atenção às particularidades estruturais da realidade concreta daquela região ou nação. As implicações referenciais de natureza histórica deveriam ser consideradas de modo a captar a direção da evolução da cultura, aprendendo a dinâmica do sentido daquele momento vivido.

A Redução sociológica de Guerreiro Ramos não propõe que a intelectualidade periférica faça de um isolamento autárquico falsa virtude. Muito menos nega a universalidade da ciência. O que ela afirma é sim “o caráter subsidiário da produção estrangeira” e propõe um método de assimilação crítica de teorias e arranjos institucionais exógenos, refutando transplantações miméticas e estéreis.

Com referência a Guerreiro Ramos procuramos demonstrar que, em seu empenho por entender o Brasil, Celso Furtado operou uma autêntica “redução econômica” em suas teorizações sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, evidenciando essa “atitude redutora” em episódios de sua vida e obra.

Esses elementos já podem ser observados no período de doutoramento de Furtado em Paris. O jovem Furtado, numa postura de diálogo e interação com o mundo, se propõe a mergulhar na realidade concreta do pós-guerra. Em tal experiência de vida identificamos não apenas aspectos teóricos que irão amadurecer mais tarde – relativos ao planejamento, à inserção internacional da economia, à perspectiva histórica, à visão social e política, à cultura – mas também, e com forte destaque, a interação entre o aprendizado e a ação e a necessidade de liberdade para “pensar, criar e agir” com “compromisso e responsabilidade”.

A experiência de Furtado na Comissão Econômica para América Latina (CEPAL) é das mais ricas no exercício de um “saber situado”. Foi essa sua grande oportunidade de vida para conhecer e pensar a América Latina (e o Brasil nesse contexto). Foi também momento decisivo na construção histórico-biográfica de sua trajetória de “economista heterodoxo”. Suas participações como membro da Cepal em diversos debates e missões criaram a base para uma confrontação crítica com as doutrinas hegemônicas do mainstream acadêmico, incentivando-o a afirmar uma teorização “situada, autônoma e comprometida”.

Furtado coloca para si, o desafio de teorizar o subdesenvolvimento. O método histórico-estruturalista, por ele desenvolvido na Cepal, é resultado dessa busca incansável por uma abordagem que não se deixa tolher pelos limites da ciência econômica hegemônica, incapaz de compreender e propor caminhos de superação para as especificidades do subdesenvolvimento latino-americano e brasileiro.

Seu livro Formação econômica do Brasil é referência clássica do método histórico-estruturalista, como suporte para se efetivar uma interpretação “situada, comprometida e enraizada”. Nele a análise faseológica é um recurso para identificar linhas-mestras das transformações estruturais no âmbito organizacional e nas bases materiais da dinâmica econômica.

A identificação das especificidades situadas e situacionais das estruturas subdesenvolvidas configura a intenção de Furtado de elaborar um “saber operativo”. E a técnica de programação voltada para os países subdesenvolvidos, desenvolvida na Cepal por Furtado, emerge com o amadurecimento da análise cepalina. Ela pode ser caracterizada como uma ferramenta fundamental para um “agir situado”. O exercício desse “saber operativo e enraizado” nos permite identificar dois momentos fundamentais da trajetória de vida de Furtado: sua participação no grupo misto BNDE-Cepal e sua contribuição para a elaboração de uma política de desenvolvimento para o Nordeste.

Em sua fase mais madura, Furtado afirma explicitamente que toda estratégia de desenvolvimento se assenta sobre uma perspectiva antropológico-filosófica. E desde tal perspectiva propõe o desenvolvimento como processo endógeno, que abre espaço para a potencialidade cultural. O debate sobre estratégias do desenvolvimento brasileiro requer, portanto, uma reflexão sobre a herança cultural e suas potencialidades. Nessa perspectiva, o legado de Furtado pode servir de referência à “teoria dos sítios” proposta por Hassan Zaoual, que afirma o primado do homo situs (o homem situado) sobre o homo oeconomicus como parâmetro e referência valorativa das estratégias de desenvolvimento globalizantes baseadas na lógica do mercado.

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