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Ciências humanas e complexidades (2ª edição)

Projetos, métodos e técnicas de pesquisa. O caos, a nova ciência

Rogério Lustosa Bastos

Este trabalho nasceu basicamente de dois acasos. O primeiro relaciona-se ao fato de que lecionando uma disciplina denominada “Técnicas de Pesquisa em Psicologia”, me vi diante de um evento curioso: de um lado havia um equívoco enorme, no sentido de reduzir a questão das pesquisas e sua própria validação apenas ao método experimental; de outro, havia ainda um hiato considerável, notadamente a partir do grupo discente, no que tangia ao processo de se implementar concretamente uma pesquisa bibliográfica. Dizia-se, entre outros absurdos, que uma pesquisa em ciências humanas só poderia ser desenvolvida a contento se estivesse necessariamente de acordo com o método experimental.

Ora, tal absurdo não tem sustentação acadêmica. Embora esse pensamento possa ser identificado com uma visão simplista e próxima ao senso comum, que é contra ao próprio método experimental, ainda assim cabe um pequeno parêntese: é óbvio que se observam muitas pesquisas ruins, sobretudo por lacunas que envolvem questões de métodos e de rigor. Contudo, mesmo pensando assim, de outro lado, fica difícil sustentar o argumento de que a pesquisa em ciências humanas só é possível através de um único método. Discutir acadêmica e criticamente por tal via é seguir uma argumentação contrária à própria ciência, ou seja, é tão inconcebível pensar que só se pode fazer pesquisa unicamente pelo método experimental como também é indefensável sustentar a exclusividade do método de pesquisa participante, ou de qualquer outro.

Para os que ainda queiram, quem sabe, aprofundar essa discussão no plano da ciência atual, cabe lembrar PRIGOGINE (1984, 1990, 1992), físico belga, prêmio Nobel de Química de 1977. Na sua obra, entre outros destaques, diante do paradigma da ciência clássica, ele abre um novo campo e principalmente traz contribuições ao ressaltar as questões da irreversibilidade, da instabilidade, do caos:

"As leis da física, em sua formulação tradicional, descrevem um mundo idealizado, um mundo estável e não o mundo instável, evolutivo, em que vivemos. Este ponto de vista força-nos a reconsiderar a validade das leis fundamentais, clássicas e quânticas. Em primeiro lugar, nossa recusa da banalização da irreversibilidade funda-se no fato de que, mesmo na física, a irreversibilidade não pode ser mais associada apenas a um aumento da desordem. Muito pelo contrário, os desenvolvimentos recentes da física e da química de não-equilíbrio mostram que a flecha do tempo pode ser uma fonte de ordem. (...) A irreversibilidade leva ao mesmo tempo à desordem e à ordem.

Longe do equilíbrio, o papel construtivo da irreversibilidade torna-se ainda mais impressionante. Ela cria, ali, novas formas de coerência (...). A vida só é possível num universo longe do equilíbrio” (PRIGOGINE, 1996, p. 29-30).

Na realidade, Prigogine quer sublinhar, em síntese, que a investigação científica problematiza fatos que não se reduzem exclusivamente ao paradigma das certezas, baseado principalmente na física de Newton. O que isto compreende? De um lado, compreende fundamentalmente que, pelo menos do ponto de vista da atual ciência, a irreversibilidade, a incerteza, a instabilidade passam a ser discutidas sem o caráter depreciativo que ganhavam até pouco tempo. De outro lado, compreende também que longe de fazer a defesa ingênua do aniquilamento do rigor, do pensamento sistemático, da ordem, fatores admitidos como fundamentais para a ciência clássica, Prigogine, ao contrário, problematiza e amplia o debate sobre tais pontos. Estes, quando analisados junto ao acaso, à desorganização, à instabilidade e outros aspectos do gênero, enriquecem a compreensão do acontecimento científico até então visto de forma simplificada. Tal análise, principalmente desenvolvida a partir de estudos sobre a “flecha do tempo”, sugere, em resumo, que estamos diante de um novo paradigma científico, ou de uma “nova aliança”, onde, na análise do fato científico, os ditos conhecimentos menores e/ou maiores não só estão retroagindo uns sobre os outros, como também oscilam e problematizam-se na relação entre o caos e a complexidade.

O segundo acaso relacionou-se ao fato de que ao ter concluído minha tese de doutorado, reunindo um número considerável de anotações e delineamentos sobre as pesquisas em ciências humanas, mostrei tais apontamentos para outros docentes, entre eles, uma professora de literatura e doutora da Universidade Federal de Minas Gerais, que me sugeriram, então, que me impusesse a tarefa de transformar as anotações em um livro. Na verdade, Adelaine La Guardia, nome da referida professora, tem uma enorme participação nessa empreitada. Devo a ela não só a iniciativa de ter-me estimulado na transformação desse material na palavra escrita, como também a sugestão de tentar apresentá-la num estilo de multilivro, ou de livro intercambiável. Vejamos um trecho de um trabalho que me foi apresentado pela Adelaine, o qual, tratando do assunto, diz: “As folhas desse livro seriam cambiáveis, poderiam mudar de lugar e ser lidas de acordo com certas ordens de combinação determinadas pelo auto-operador [que de resto não se considera mais do que um leitor situado numa posição privilegiada, face à objetividade do livro que se anomiza]”. Enfim, trata-se “de um multilivro onde a partir de um número relativamente pequeno de possibilidades de base, se chegaria a milhares de combinações”(CAMPOS, 1977, p 18)

A idéia de livro intercambiável, a partir do trecho acima, como se pode notar, provém de um texto de Mallarmè, “Le Livre, instrument spirituel”, escrito dentro do espírito de uma nova física. O texto, além de fugir à idéia usual de livro, incorporava simultaneamente a permutação e o movimento como aspectos fundamentais, principalmente visando colocar o leitor como agente de estruturação do conteúdo. Ou seja, diante de um livro com essas características, além de o leitor poder lê-lo pela forma usual – aquela que segue do primeiro ao último capítulo, passo a passo –, é possível lê-lo também de outras maneiras; pode-se ler um capítulo da segunda parte, para só depois ler-se a primeira parte, por exemplo; pode-se ler sucessivamente um capítulo de uma parte e outro capítulo de outra parte, tudo isso sem prejuízo do entendimento do conteúdo. Além de permitir leituras diversas do modo usual sem prejuízo do conteúdo, o mais relevante aqui é que tal texto permite um diálogo com o leitor, no sentido de que este opere as páginas lidas e faça combinações diversas, dando-lhes uma ordem em função de seu interesse. Talvez nem seja necessário sublinhar que tal fato gera fundamentalmente uma ação criadora e transforma o leitor num auto-operador do texto em questão. Trata-se, enfim, do livro de espírito cambiável ou da operação da nova física do livro.

Na tentativa de realizar tal espírito, esse livro encontra-se dividido em cinco capítulos.

No primeiro deles, como uma espécie de introdução, observa-se uma visão panorâmica onde estão ressaltados alguns procedimentos que se devem adotar, principalmente tendo em vista o início ou o momento prévio da pesquisa acadêmica. Diga-se de passagem que é a partir da concretização desses procedimentos básicos, no citado planejamento prévio da pesquisa, que se faz a ruptura com o senso comum, que precisa se dar a partir da delimitação do assunto escolhido. Tal parte aqui ganha o título de “MOMENTO PRÉVIO DA PESQUISA: RUPTURA COM O SENSO COMUM”. No segundo capítulo, através do subtítulo “DA PROBLEMÁTICA À ELABORAÇÃO DO PROJETO DE PEQUISA”, desenvolve-se uma discussão básica sobre os fundamentos e principais questões concernentes à elaboração do projeto de pesquisa. No terceiro capítulo, DA DISCUSSÃO DOS PRINCIPAIS MÉTODOS E TÉCNICAS DE PESQUISA, há uma apresentação de alguns dos métodos científicos e uma discussão das principais técnicas que podem ser aplicadas através deles. No quarto capítulo, discute-se “A QUESTÃO DA BIBLIOGRAFIA E DA REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA”. Além de dizer que se encontra aqui uma série de normas e regras básicas acerca do assunto citado, vale assinalar que anotar devidamente as fontes de consultas, fazer as fichas bibliográficas, destacando as possíveis citações de grande interesse de forma adequada, assim como registrando corretamente as referências bibliográficas das obras que ajudam o trabalho na sua idéia principal, são indubitavelmente um fator de grande valia para qualquer pesquisador. Nada pior do que por desconsiderarmos tal questão, perdemos um tempo desnecessário no meio de dezenas de livros já pesquisados, só porque precisamos fazer uma citação importante e estamos impossibilitados de localizar o texto pertinente, porque não temos todos os dados completos que o indiquem; nada pior do que meses após pesquisar um determinado assunto em uma biblioteca, termos que voltar novamente ao mesmo lugar, principalmente porque há uma série de textos imprescindíveis, que embora já tenham sido estudados, não foram anotados de forma devida e não podem ser citados corretamente. O quinto capítulo se refere à ESTRUTURAÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA. Em síntese, aqui encontraremos uma série de sugestões e críticas sobre o desenvolvimento de pontos relevantes que devem constar no projeto de pesquisa. Dentre as sugestões que debateremos, destacamos: o resumo, a introdução, a revisão da literatura em questão, o cronograma, entre outros pontos.

 

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