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O pai do futurismo no país do futuro

As viagens de Marinetti ao Brasil em 1926 e 1936

Orlando de Barros

Em setembro de 2009, o Manifesto Futurista fez o centenário, surgido da ideia original de Filippo Tommaso Marinetti, dado a lume nas páginas do jornal parisiense Le Figaro. O grito futurista data de uma época em que abundavam os manifestos artísticos, a maioria de curtíssima duração. Assim, o futurismo teve que concorrer com não poucas escolas estéticas e programas modernistas, por isso diluiu-se um tanto, tendo pouca influência fora da Itália - e da Rússia também. Ressalte-se que o futurismo teve em Marinetti mais que um chefe de escola, um verdadeiro apóstolo ou, como ironizou um crítico carioca, o fut-papa, sempre disposto a chocar e desafiar o público em performances memoráveis realizadas nas grandes capitais do mundo.

As propostas futuristas eram defendidas ardentemente pelo seu criador. Entretanto, o futurismo não se limitou à literatura, à música e às artes plásticas. Desde o começo, esteve vinculado a um programa político e social, convergindo para o ultranacionalismo, e acabou, na Itália, aliado do fascismo e tornou-se um dos suportes ideológicos do regime de Mussolini, e deste ditador Marinetti era amigo próximo.

É controversa a influência estética do futurismo no Brasil dos anos 1920 e 1930, época do surgimento dos movimentos modernistas. De qualquer modo, era então usual nomear como futuristas os poetas e artistas modernistas, o que aconteceu àqueles que participaram da Semana de 22, embora alguns deles fossem rejeitar o apelativo logo depois.

Marinetti esteve no Brasil duas vezes, em 1926 e em 1936. Na primeira vez, trazido por um empresário dos espetáculos, só se saiu bem na primeira conferência, no Rio, quando foi apresentado ao público por Graça Aranha, no palco do passadista Teatro Lírico. Nas demais apresentações, sobretudo em São Paulo, foi impedido de falar devido às vaias e manifestações de desagrado, sob a cumplicidade ou indiferença dos modernistas brasileiros, exceto uns poucos. De qualquer modo, na primeira viagem, Marinetti esforçou-se para convencer que viera falar de arte e não de política. Em São Paulo, além da oposição exaltada dos estudantes, ainda contou com a ira dos refugiados do regime político italiano.

Em 1936, nas meteóricas passagens por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, Marinetti não tinha nada a disfarçar, vindo de um tumultuado congresso em Buenos Aires. Veio fazer propaganda política, veio fazer o relato de sua experiência como poeta-soldado na guerra colonial do governo de Mussolini contra a inerme Etiópia, onde lutou, no posto de capitão. Defendia então a guerra como higiene da humanidade. E, no entanto, não teve oposição nas conferências feitas no Brasil. Antes, ao contrário, foi muito festejado pelos integralistas e ítalo-brasileiros convertidos ao fascismo, situação bastante distinta da que havia ocorrido uma década antes.

Os quiproquós dessas duas viagens do criador do futurismo ao Brasil são amplamente relatados aqui, neste livro essencial e erudito, que dá conta também, em larga medida, e de maneira tão bem documentada, mas de leitura amena, do estado da cultura brasileira da época.

Cleia Schiavo Weinrauch

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