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Revista Inteligência Empresarial - n.38

Meio Ambiente e cultura: forças estruturantes para o desenvolvimento local

Centro de Referência em Inteligência Empresarial da Coppe/UFRJ

No cenário de grandes mudanças que a sociedade vem passando nas últimas décadas, as novas tecnologias de comunicação e processamento de dados vêm promovendo a conscientização cada vez maior da população, sobretudo pelo maior acesso à informação por meio da internet e de redes de relacionamento. Pelas fortes mudanças climáticas advindas do aquecimento global, que acabam impactando as economias locais e criando catástrofes ambientais e sociais de efeitos significativos. Pela crescente redução de postos de trabalho advindo das mudanças radicais de modelos de negócios, que se apropriam das novas tecnologias e exigem cada vez mais produtividade. Pela falta de infraestruturas básicas para melhorar a qualidade de vida e pela falta de incentivos à Educação e ao Empreendedorismo, de forma universalizada. Pelo impacto do processo de urbanização com a migração de milhares de pessoas do campo e de outras localidades para as cidades com melhores infraestruturas. Para fazer frente a todos esses desafios, faz-se necessário cada vez mais a participação dos agentes locais no processo de construção de soluções que resolvam os problemas latentes e projetem o futuro, contribuindo para a formulação de políticas locais que podem influenciar políticas nacionais para o desenvolvimento econômico e social de determinados territórios, com baixos indicadores socioeconômicos e ambientais.

Desenvolvimento local pode ser definido aqui como a assistência e o apoio a determinados territórios menos desenvolvidos econômica e socialmente, com o objetivo de promover resultados positivos, percebidos internamente e externamente à localidade. Neste processo, uma das questões fundamentais para o desenvolvimento de uma localidade é o engajamento dos atores locais na construção de soluções adequadas a problemas existentes e em questões ligadas ao futuro sustentável da comunidade do território a ser trabalhado. O território pode ser uma região, uma cidade, um bairro ou parte deste. O importante é delimitar o universo a ser analisado e buscar informações quantitativas e qualitativas sobre características culturais e tecnológicas, econômicas, sociais e ambientais, incluindo seus problemas e soluções.

As inter-relações dos espaços ou setores em um determinado local, com o seu entorno e com outros territórios, são importantes para o processo de desenvolvimento local, tendo como lógica a existência de um ecossistema econômico e social. É muito importante evitar, então, a visão fragmentada na formulação de propostas de melhoria sem observar o sistema como um todo.

Na proposição de ações e soluções, devem existir pelo menos dois caminhos de igual importância a serem trilhados: a redução de desigualdades regionais e o fomento às potencialidades de determinados grupos locais, no qual seus membros são identificados, não somente pelo espaço ocupado, mas por traços culturais singulares que proporcionam sentimento de pertencimento e empatia. Essas características podem ser potencializadas por meio do uso de informações quantitativas, estatísticas e qualitativas, organizadas através de metodologias científicas adaptadas para as questões específicas da localidade.

As temáticas pertinentes à inclusão social produtiva e à sustentabilidade são fundamentalmente intrínsecas e interdependentes ao processo de desenvolvimento. Neste sentido, conforme relatório elaborado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), Inclusão Produtiva no Brasil (2015), em “Objetivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável” foram descritos 17 objetivos estratégicos que servem de parâmetro no processo de construção de projetos de desenvolvimento socioeconômicos e ambientais, visando a inclusão produtiva. Esses objetivos englobam as seguintes questões: erradicação da pobreza, através do incentivo a agricultura familiar e fome zero; melhoria da saúde e bem-estar da população e visitantes; educação de qualidade; igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia limpa e acessível; trabalho decente inclusivo e crescimento econômico; indústria, inovação e infraestrutura; redução da desigualdade social, cidades e comunidades sustentáveis; consumo e produção sustentável, através da economia circular e colaborativa; ações contra mudanças climáticas; vida na água; vida terrestre; e paz, justiça e instituições eficazes, com destaque para a importância das parcerias e dos meios de implementação das estratégias objetivadas.

Os objetivos de um programa ou projeto de desenvolvimento necessitam ser planejados e implementados através de ações efetivas e de metodologias adaptadas às necessidades da localidade. E para isso se faz necessário o engajamento dos atores locais: representantes institucionais, comunitários, governamentais, de entidades de fomento, de ONGs, do setor privado e da área científica. Além desses atores locais, de igual importância são os atores externos ao sistema que podem fornecer assessoria especializada, apoio e recursos. O processo de desenvolvimento deve priorizar os atores endógenos ao sistema, mas sem negligenciar os atores exógenos que desejam dar suas contribuições para a construção de um bom projeto, atuando como catalisadores de boas práticas, além do papel de mediadores de interesses locais.

Políticas de desenvolvimento são necessárias quando as condições sociais e de mercado não interagem para criar condições de melhoria da qualidade de vida, por meio da sustentabilidade econômica, social e ambiental da população, de forma natural e espontânea. Então, é possível definir que políticas públicas devem ser implementadas através de instrumentos que influenciam positivamente, diretamente ou indiretamente, para que a sociedade evolua de forma saudável, inclusiva e dinâmica. Essas soluções visam minimizar possíveis assimetrias, falhas de mercado e interesses meramente individuais e oportunistas. Nessa abordagem, é importante identificar fatores sistêmicos, estruturais e locais que influenciam o ambiente social, econômico e o meio ambiente, impactando na qualidade de vida das comunidades locais, seus trabalhadores e empreendedores.

Com vista em propor soluções de curto e médio prazo, sem negligenciar a visão de longo prazo, é preciso identificar os fatores mais próximos das decisões locais que detém controle parcial ou total sobre o estabelecimento de propostas e ações de melhoria. A comunidade também pode influenciar os agentes de formulação de soluções estruturais, responsáveis pelas questões, como regulamentação, saneamento, educação e saúde, além de determinadas questões ligadas ao ambiente de trabalho e de negócio. Em um segundo momento, apesar das questões sistêmicas estarem aparentemente longe do processo de decisão dos atores locais, a comunidade pode ser mais uma voz, juntamente com outras localidades, a influenciar mudanças sistêmicas necessárias a melhoria da qualidade de vida das populações, do meio ambiente e do ambiente de negócios.

Nos exemplos bem-sucedidos de projetos de desenvolvimento local, é fundamental destacar a existência de perfis de lideranças que fazem a diferença. Esses bons líderes, internos ou externos à localidade, apresentam características típicas do perfil de um empreendedor. Neste caso, identifica-se a participação de indivíduos intraempreendedores. Para Perlard (2010), intraempreendedores são pessoas que possuem uma capacidade diferenciada de análise de cenários, de criar ideias, inovar e buscar novas oportunidades. São pessoas que empreendem negócios de terceiros. Esses indivíduos, visto sua importância para o sucesso de programas e projetos de fomento, são descritos por alguns pesquisadores, como Paolo Gurisatti, como tigers (tigres, em inglês) nos modelos dos distritos industriais italianos das regiões norte e noroeste, estendendo este conceito para os modelos dos arranjos produtivos locais brasileiros (APLs). Gurisatti chega a afirmar que a não existência desses indivíduos impacta negativamente nas iniciativas de políticas de fomento a aglomerados produtivos.

Esta edição da revista Inteligência Empresarial, organizada pelo pesquisador Luiz Carlos Prestes Filho, apresenta uma série de artigos que são bons exemplos sobre as formas e métodos que podem ser utilizados como referência para formuladores e gestores de políticas públicas, pesquisadores e pessoas interessadas em desenvolvimento local.

Em um primeiro momento, é possível destacar o trabalho de Daniela Dantas, que ressalta a importância de se medir os resultados dos programas e projetos de fomento, sublinhando o real impacto destes para o público-alvo, foco da política pública a ser implementada. Daniela chama a atenção para a importância do diagnóstico inicial, abordando aspectos quantitativos e qualitativos, considerando informações locais, municipais, colocando como “pano de fundo” a importância dos indicadores culturais. Destaca ainda o método de estabelecimento de indicadores, propondo em seu artigo uma abordagem simples e prática sobre a aplicabilidade dos indicadores como instrumento de gestão de programas e projetos de desenvolvimento. O mesmo poderia ser aplicado para a organização de dados estaduais e federais de uma localidade específica.

Os artigos tratam a cultura e a sustentabilidade como importantes temas a serem observados e utilizados nos projetos de desenvolvimento local. No caso do artigo de Cleo Pires, atriz e militante da casa ambietal, esses temas ficaram muito evidenciados, principalmente em relação à sustentabilidade socioambiental. Cleo descreve um projeto de desenvolvimento para a localidade de Araras, em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro. Sua atuação nesta iniciativa se dá como uma intraempreendedora, utilizando-se da sua energia, motivação e capacidade de mobilização para transformar a realidade das comunidades em situação de risco da localidade. Seu foco é a melhoria da qualidade de vida da comunidade de Vista Alegre preservando o meio ambiente. Para isso, fez parcerias com especialistas de renome no assunto.

Em outro artigo, o professor Carlos Lessa descreve a sua proposta de revitalização do Largo da Petúnia, onde também atua como um intraempreendedor, incentivando o diálogo entre moradores, empresários locais e poder público, colaborando para a construção de soluções coletivas propostas pelos atores locais, que também podem ser apoiadas por atores externos. Lessa destaca a importância do resgate da história e da cultura da localidade como importante vetor de desenvolvimento, visando à revitalização deste singular espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro.

O que é possível observar nos artigos da revista é que história e cultura local são uma grande fonte de promoção da inovação que podem transformar positivamente a realidade dos territórios e de suas comunidades. O processo de inovação é uma das garantias de sucesso de qualquer empreendimento e uma das formas de se obter a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Ambos os projetos, de Araras e do Largo da Petúnia, são de cunho territorial, apesar de conceitualmente não serem enquadrados como arranjos produtivos locais (APLs) – , podem utilizar as ferramentas e instrumentos de dinamização, como estruturação de governança, planejamento e gestão, fomento a capacidade empreendedora, marketing e identidade local de produtos e serviços, incentivo às inter-relações empresariais, incentivo à inovação e ao empreendedorismo, economia circular e colaborativa e crédito de proximidade.

A mestranda em Engenharia de Produção Camila Soares, presidente da Escola de Samba Mirim Pimpolhos da Grande Rio, e o economista Marcelo Matos abordam em seu artigo a relevância da cultura como fonte de inovação, destacando a cadeia produtiva da economia do carnaval como importante ativo econômico e expressão da genialidade e da identidade dos brasileiros. Descrevem a grande participação de brasileiros e estrangeiros, a geração de postos de trabalho e o faturamento proporcionado pelo carnaval, associando sempre economia com cultura, inovação, gestão e desenvolvimento. Também sobre o carnaval, o administrador Fabio França, participante do processo de operação do carnaval ressalta a necessidade de profissionalização e gestão do trabalho do diretor de barracão, visando melhores resultados para os eventos carnavalescos.

Esta edição da revista Inteligência Empresarial poderá fornecer para seus leitores alguns caminhos para a elaboração de projetos e estudos com foco no desenvolvimento local, através da valorização da cultura como importante alicerce para o desenvolvimento e geradora de inovações, contribuindo para a criação de novos postos de trabalho e empreendimentos.

Parabéns a Luiz Carlos Prestes Filho, Carlos Lessa, Cleo Pires, Daniela Dantas, Camila Soares e Fabio França pelas contribuições. O compartilhamento de seus conhecimentos e experiências inspira o desenvolvimento de conteúdo e projetos que podem ser feitos por brasileiros para brasileiros, de forma altruísta e generosa, visando uma sociedade mais justa, dinâmica, inclusiva e sustentável.

Renato Dias Regazzi
Especialista em Desenvolvimento Regional e gerente da Área de Grandes Empreendimentos do Sebrae/RJ, além de Conselheiro Administrativo da Agência Desenvolve do Estado de Alagoas.

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