capa do livro

Cidades criativas

Aspectos setoriais e territoriais

João Luiz de Figueiredo e Diego Santos Vieira de Jesus (orgs.)

Introdução

João Luiz de Figueiredo
Diego Santos Vieira de Jesus

A economia criativa refere-se a um conjunto de atividades, bens e serviços que têm base na criatividade, no talento ou na habilidade individual (MIGUEZ, 2007, p. 96-97). Ela engloba setores como publicidade, arquitetura, mercado de artes e antiguidades, artesanato, design, design de moda, cinema, software, softwares interativos para lazer, música, artes performáticas, indústria editorial, rádio, TV, museus e galerias, bem como atividades relacionadas às tradições culturais (DCMS, 1998; BENDASSOLLI et al., 2009, p. 11). Em todo o mundo, novas possibilidades de desenvolvimento foram abertas com a economia criativa a partir da mobilização produtiva de especificidades culturais e criativas locais. Além disso, relações complexas foram construídas entre governos e empresas de diferentes tamanhos, territórios e expertises ligadas às atividades dessa economia (JESUS e KAMLOT, 2016, p. 16-18). Tais transformações deram-se num contexto mais amplo de transição de valores materialistas para pós-materialistas – caracterizados pelo atendimento a necessidades de ordem estética e intelectual – e de emergência da sociedade do conhecimento, em que o capital tem base nos recursos intelectuais do indivíduo, na formação de redes sociais e na troca de conhecimentos (BENDASSOLLI et al., 2009, p. 11-12; FLORIDA, 2002; HOWKINS, 2001).

A criatividade configurou-se, no contexto contemporâneo, não apenas como elemento fundamental da competitividade das empresas, mas como item de diferenciação de lugares que procuram se destacar na competição global por investimentos. Tendo isso em vista, as políticas de desenvolvimento urbano e regional assumiram gradativamente o papel do conhecimento e da criatividade como recursos territoriais que fortalecem competências pela diferenciação e apresentam potencial para a geração de emprego e renda (FIGUEIREDO, 2015, p. 34). O questionamento de políticas tradicionais de desenvolvimento territorial trouxe consigo uma maior relevância da noção de “territórios criativos”, expressão que se refere a cidades, estados de uma federação, regiões ou polos que tenham potenciais culturais criativos e aliem preservação e promoção de valores culturais e ambientais rumo ao desenvolvimento integral e sustentável.

A globalização e a expansão da economia de serviços, a flexibilização das fronteiras nacionais, os desenvolvimentos em ciência e tecnologia e o consumo de valores simbólicos ampliaram a mobilização de estratégias em torno do conceito de “cidade criativa” para o desenvolvimento territorial (TRIP, 2009, p. 3). O conceito de “cidade criativa” frequentemente é utilizado em referência a cidades nas quais a articulação entre atividades sociais e artísticas, setores criativos e governo produziu uma efervescência cultural que atraiu talentos, promoveu a diversidade social e fortaleceu o potencial criativo de empresas e instituições (CCTC, [s.d.]). Porém, para Charles Landry (2011, p. 11-14) – um dos principais autores a refletir sobre o conceito –, a criatividade de uma cidade se aplica a múltiplos campos que transcendem os setores criativos: a administração pública deve promover inovações sociais com criatividade em áreas como saúde, serviços sociais e governança. Essas cidades reúnem cultura – relacionada à identidade urbana e ao patrimônio –, comunicação – os modelos físicos e tecnológicos de aproximação entre habitantes e a minimização dos conflitos e afastamentos – e cooperação, entendida como a interação e a aceitação plena da diversidade.

Para que se estimulem oportunidades ou se resolvam problemas urbanos em uma cidade criativa, faz-se necessária não somente uma infraestrutura bruta de equipamentos culturais e um sistema eficiente de transporte e saneamento básico, mas uma infraestrutura branda que inclua uma força de trabalho capacitada e flexível; pensadores, criadores e implementadores dinâmicos; e infraestrutura intelectual ampla formal e informal (CHANTELOT et al., 2011, p. 7-9). A construção de cidades criativas envolve o direcionamento de recursos para obras estratégicas e a coordenação de esforços entre diferentes níveis de governo para captar recursos, estimular a participação pública, integrar a população ao mercado de trabalho e incentivar a criação e o fortalecimento dos negócios locais. Dentre as principais iniciativas voltadas para tal construção, cabe destacar a criação de incubadoras e aceleradoras de empresas, o estímulo à constituição de distritos e bairros criativos, a realização de feiras e exposições para dinamizar o comércio local, a manutenção da infraestrutura adequada para a produção e a comercialização de bens, a implementação de programas de educação empreendedora, o incentivo à inovação nas empresas, a facilitação do acesso à tecnologia, o desenvolvimento de sistemas de crédito acessíveis e eficientes e a desburocratização (LOPES e AMARAL, 2008, p. 33-37). Mostram-se também fundamentais à construção das cidades criativas a definição de parcerias e a governança com engajamento comunitário. A mola propulsora dessas transformações pode estar na desindustrialização da cidade, na busca de maior mobilidade turística, na necessidade de ressignificação de espaços ou mesmo na valorização da cultura como setor econômico e condição imprescindível para a formação de ambientes criativos (REIS, 2011, p. 10-13). Competições esportivas internacionais ou eventos culturais de grande porte também podem ser utilizados para justificar o desenvolvimento de políticas e projetos de transformação em cidades criativas (MOURA, 2007, p. 349).

Entretanto, críticos do conceito de “cidade criativa” apontam que o modelo de urbanismo no qual ele se enquadra está associado a imperativos econômicos e a uma agenda neoliberal, que marginaliza efeitos redistributivos potencialmente negativos. Ademais, o estímulo a formas estereotipadas de atividades criativas pode ocorrer em detrimento de investimentos em bem-estar social, educação, saúde ou apoio a outras formas de criatividade que não sejam as valorizadas por elites urbanas. O “cosmopolitismo competitivo” que marca as cidades criativas parece repaginar modelos de empreendedorismo e governança urbana que atraem capitais altamente voláteis e criam uma falsa ideia de habitabilidade para todos quando, na verdade, orientam-se para amenidades (CLOSS et al., 2014, p. 4-6). Esses modelos podem não alterar o contexto em que as disparidades de riqueza se desenvolvem, sendo grandes os riscos de gentrificação e exclusão social. A aplicação de fórmulas estéreis de desenvolvimento urbano sem consideração das circunstâncias locais específicas pode conduzir ao fracasso na construção de uma cidade criativa (MILES, 2014, p. 128-129).

Tendo isso em vista, os objetivos deste livro são examinar aspectos setoriais das cidades criativas e investigar os méritos e as limitações das iniciativas implementadas no desenvolvimento dos setores criativos nesses territórios. Inicialmente, o artigo de Ana Flávia Machado, Gabriela Vasconcelos e Bárbara Freitas Paglioto, “As atividades da economia criativa em Belo Horizonte e RMBH sob a perspectiva do empreendimento e emprego”, explora a forma como a combinação de fazeres tradicionais e repertório tecnológico permite a uma cidade – no caso, Belo Horizonte – viabilizar a potencialização de indústrias criativas, ainda que fora dos eixos principais de atividades dessas indústrias em um país. As autoras argumentam que a existência de aglomerações de estabelecimentos e autônomos em atividades criativas acompanha sua especialização e os vínculos empregatícios formais, além de sinalizarem que a pujança de territórios criativos na região metropolitana da capital mineira (RMBH) pode exercer fundamental impacto para o desenvolvimento socioeconômico local e regional.

Com destaque para os paradoxos contidos na construção de uma cidade criativa, Claudia Sousa Leitão, Luciana Lima Guilherme e Raquel Viana Gondim, no artigo “Fortaleza da desigualdade e da criatividade: reflexões sobre as cidades no século XXI”, tomam Fortaleza como seu estudo de caso e apontam que, por um lado, as cidades passam a se definir como o lócus privilegiado de políticas, programas e ações voltados à criação de uma ambiência propícia à produção, à difusão e ao consumo da cultura e a ter como base do seu desenvolvimento a economia criativa. Por outro lado, tal economia se insere no contexto do que as autoras chamam de “capitalismo estético”, em que os setores criativos são apropriados pelo mercado, a oferta de produtos padronizados ameaça a diversidade cultural e o consumismo exacerbado domestica mentes, esvazia imaginários, estimula o individualismo possessivo e despolitiza o indivíduo.

Já o artigo de João Luiz de Figueiredo e João Grand Jr., “Caminhos do desenvolvimento: contradições e possibilidades da economia criativa para a cidade do Rio de Janeiro”, propõe uma discussão acerca da centralidade da cultura na geração de valor econômico a partir de valores simbólicos e do impacto da economia criativa na mitigação das desigualdades territoriais em contextos urbanos. A partir da investigação de políticas públicas implementadas na cidade do Rio de Janeiro, os autores reconhecem desafios relacionados à subjugação das atividades culturais pela busca de recompensas econômicas vinculadas à propriedade intelectual, ao aumento da desigualdade de renda entre profissionais ligados aos setores criativos, ao aprofundamento da precarização do trabalho nesses campos e à invisibilidade de trabalhadores fora das grandes aglomerações criativas. Entretanto, argumentam que a economia criativa tem o potencial de superar esses obstáculos e ser mais potente quanto maior for o reconhecimento da diversidade cultural. As políticas públicas devem, assim, valorizar a multiplicidade de expressões culturais e garantir equidade de acesso a recursos necessários à produção, à distribuição e ao consumo de bens e serviços criativos a fim de reduzir as disparidades socioeconômicas entre as regiões de uma cidade criativa.

Partindo para as análises das particularidades e especificidades dos setores culturais, o artigo de Rodrigo Carvalho e Lilyan Berlim, “Novos modelos de negócios e inovação na indústria da moda e as grandes cidades”, ressalta que o setor criativo da moda tende a incorporar os valores expressos pela contemporaneidade e as inovações pertinentes. Na perspectiva dos autores, a moda configura-se como um sistema sociotécnico que abarca não apenas uma cadeia produtiva específica, mas uma expressão das complexidades temporais e espaciais localizadas na criação e na gestão de novos modelos de negócios. Tais modelos incorporam lógicas gerenciais, criativas, produtivas e distributivas para um posicionamento inovador das empresas em relação a consumidores e concorrentes. Nesse contexto, os grandes centros urbanos assumem importância primordial ao contextualizarem densamente as relações sociais e culturais que estão na base desses novos modelos.

Em seu artigo “Rio de Janeiro, a marca de uma cidade criativa? Conceitos e casos que nos levam a entender a cidade e sua marca pelo olhar da economia criativa”, Patricia Reis sinaliza que, num contexto de concorrência acirrada entre cidades na busca por investimentos, o estímulo à economia criativa pode funcionar como uma forma de diferenciação e de agregação de valor sobre produtos e serviços, incorporando-se as singularidades às identidades locais. Tomando o Rio de Janeiro como estudo de caso, a autora pretende analisar como a construção e a gestão de marcas urbanas – o city branding – pode contribuir para o desenvolvimento da economia criativa.

A partir de uma perspectiva feminista, Verônica Daminelli Fernandes traz, em seu artigo “Rio 2016: um mundo (sempre) novo? Nacionalismo, gênero e erotismo na abertura dos Jogos Olímpicos do Brasil”, uma visão crítica acerca dos imaginários tradicionais que associam o Brasil ao corpo feminino reforçados na indústria criativa das artes do espetáculo, em particular na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Se os Jogos Olímpicos pareciam ter trazido um momento que permitia uma construção identitária inovadora acerca do Rio de Janeiro e do Brasil, a autora sinaliza que tal construção foi inviabilizada pelo retorno constante a um imaginário mitológico que associa a cidade e o país às suas mulheres para exportação, fazendo das geografias regional e nacional espaços selvagens para a realização da inseminação e dos desejos dos países e dos homens do dito “centro europeu”.

Diego Santos Vieira de Jesus argumenta que, no desenvolvimento da economia criativa no contexto urbano, o patrimônio cultural assume papel primordial, uma vez que compõe a memória coletiva das sociedades, embasa ações de peso político decisivo pela reapropriação e pela reabilitação do próprio presente e permite vislumbrar um futuro de relações sociais mais justas. No artigo “Saudade de mim: patrimônio cultural e economia criativa na cidade do Rio de Janeiro”, o autor explica a relevância da preservação e da valorização do patrimônio cultural para o desenvolvimento do Rio de Janeiro como cidade criativa e examina as causas da decadência física e simbólica desse patrimônio. Segundo o autor, a preservação do patrimônio cultural pode viabilizar a revitalização de espaços urbanos e conduzir à apreensão de conhecimentos tradicionais visando ao desenvolvimento socioeconômico. Entretanto, as deficiências na gestão e o escasso conhecimento técnico nos órgãos fiscalizadores conduzem à decadência física e simbólica do patrimônio cultural na cidade, o que ocorre concomitantemente às pressões exercidas por grupos particulares e pela expansão urbana desordenada, à falta de um processo de educação patrimonial intenso e à elitização do patrimônio cultural, que dificulta a identificação da população com esses bens.

Atentando para o papel dos museus no desenvolvimento de uma cidade criativa, o artigo de Lucia Santa Cruz, “O Amanhã no Museu”, apresenta uma reflexão sobre o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, como um dos eixos centrais do projeto de remodelação e revitalização da zona portuária da cidade. Segundo a autora, o Museu do Amanhã coloca-se como um museu de ideias, que se afasta de uma concepção museológica tradicional de acervo de objetos e estimula a reflexão acerca das possibilidades de futuro para a cidade, a humanidade e o planeta. A partir daí, cabe o questionamento em torno da consideração desse equipamento cultural específico como um lugar onde os cidadãos possam ancorar a memória na busca das suas próprias identidades.

Referências

BENDASSOLLI, Pedro F.; WOOD JR., Thomaz; KIRSCHBAUM, Charles; CUNHA, Miguel Pina. Indústrias criativas: definição, limites e possibilidades. RAE, v. 49, n. 1, p. 10-18, 2009.

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