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Territórios da Economia Criativa

Sílvia Borges Corrêa e Veranise Dubeux (orgs.)

Local. Lugar. Espaço. Território. Palavras que representam conceitos e que fazem parte de teorias caras a diferentes campos do conhecimento, da Antropologia à Economia, passando pela Geografia, pelo Planejamento Urbano e pela Sociologia, entre outros. Nem de longe pretende-se aqui apresentar ou definir cada um desses conceitos, ou ainda discutir as particularidades de seus usos em cada área do conhecimento; a intenção é tão somente a de destacar que também no campo específico da Economia Criativa a questão espacial ganha destaque. Basta ter em conta a quantidade de trabalhos acadêmicos que enfatizam a dimensão territorial da economia criativa, bem como a criação e disseminação de termos e conceitos como cidade criativa, distrito criativo, cluster criativo, polo criativo, creative milieu e território criativo.

A relação entre territórios e dinâmicas de desenvolvimento baseada na criatividade invoca tanto as questões mais amplas, relativas à importância das atividades criativas no desenvolvimento territorial, quanto algumas questões específicas de localização e padrões locativos, de urbanidade – notadamente de regeneração urbana1 – e de sociabilidade. São questões que direta ou indiretamente estão presentes tanto em trabalhos seminais do campo da Economia Criativa, como aqueles de Florida (2002, 2005), Howkins (2001) e Landry (2003) – e, no Brasil, os de Reis e Kageyama (2011) – como em trabalhos mais recentes construídos a partir de pesquisas empíricas em territórios específicos (BITAR, 2016; CERQUEIRA, 2014; COSTA; LOPES, 2011, 2013; FURTADO; ALVES, 2012; OLIVEIRA, 2015; URSIC, 2012) e que demonstram que o território importa. Trata-se, assim, de evidenciar que as especificidades territoriais apresentam-se como elementos fundamentais, senão determinantes, para a realização de certos tipos de atividades econômicas, de interações sociais e de manifestações culturais, e, em sentido reverso e complementar, essas atividades, interações e manifestações induzem ou potencializam o desenvolvimento (no seu sentido mais amplo) de um território.

Em uma perspectiva que combina aspectos culturais e sociais a questões econômicas, Florida (2011) afirma “o poder do lugar”, expressão que dá título a um dos capítulos de sua obra mais conhecida. Para o autor, lugares que tenham a oferecer diversidade cultural, postura tolerante e variedade de estilo de vida serão aqueles que atrairão a classe criativa. São lugares que ele chama de “Centros Criativos”, regiões bastante favorecidas economicamente, onde setores de alta tecnologia, inovações e altas taxas de emprego estão combinados, e que concentram elevado número de membros da classe criativa. Florida (2011), no entanto, argumenta que os centros criativos não estão prosperando por razões econômicas tradicionais, que envolvem elementos como recursos naturais e vias de acesso, nem por motivos que remetem a intervenções e incentivos governamentais, como as isenções fiscais. A razão da prosperidade desses centros é o desejo dos profissionais criativos viverem ali, em um ambiente onde a criatividade possa se expressar e florescer. Sendo assim, o local importa. Para Florida (2011, p. 219), “lugar e comunidade são fatores mais cruciais do que nunca”, revelando a “contínua importância do lugar na vida econômica e social”. Isso remete ao aspecto, também destacado por Howkins (2013), da territorialização da economia criativa e da tendência das empresas (semelhantes) se agruparem buscando eficiência produtiva. Há um “compartilhamento espacial” (Florida, 2011, p. 220), uma concentração de pessoas talentosas e uma criação de vínculos entre pessoas, ainda que sejam vínculos provisórios e flexíveis.

No que tange às transformações do território que os empreendimentos criativos potencializam, Vivant (2012, p. 87) alerta para a dimensão polissêmica da noção de cidade criativa que “convida à redescoberta das qualidades da cidade cosmopolita: lugar de alteridade, de encontros imprevistos, de experiências inéditas, de anonimato, de invenção de novas maneiras de ser e de fazer, de multidões e de diversidade de recursos”. Para a autora, os indivíduos criativos se sentem atraídos por locais cujo ambiente social seja aberto à diversidade e à liberdade de comportamento. A chegada de indivíduos criativos, em especial aqueles que Vivant (2012) denomina como “artistas off”, potencializa as transformações e as renovações de bairros deteriorados ou abandonados, levando à revalorização econômica e simbólica desses bairros, podendo mesmo chegar a desencadear processos de gentrificação.

Tendo como referência essas ideias, cabe, portanto, reforçar a perspectiva de que a criatividade não está associada somente à classe criativa e às indústrias criativas, está também fortemente integrada ao componente territorial, neste sentido o ciclo da criatividade urbana defendido por Landry (2003) evidencia a ligação entre a criatividade e a sua fruição para o desenvolvimento de uma cidade ou de um território.

A ideia que norteou a organização desta coletânea foi a de reunir textos que abordassem o tema da economia criativa com ênfase na dimensão territorial e que fossem textos resultantes de pesquisas empíricas. Além disso, outro ponto de convergência extremamente relevante entre os capítulos é que neles o território é pensado para além de seus aspectos geográficos e econômicos, incorporando as questões sociais e culturais, os aspectos de sociabilidade e de identidade, que compõem as relações presentes na diversidade de territórios pesquisados pelos autores desta coletânea.


1 Aqui cabe apontar que, além de regeneração urbana, diferentes termos são acionados a fim de explicar e exemplificar certos tipos de transformações urbanas: “renovação”; “reestruturação”; “reurbanização”; “revitalização”; “recomposição”; “remodelação”; “reabilitação”; “requalificação”; “refuncionalização”; “reformatação”; “ressignificação” etc. Mendes (2013), ao apresentar o conceito de “regeneração urbana”, menciona alguns desses termos e atenta para o fato de que, embora tenham significados específicos, a maioria desses conceitos e categorias “têm subjacente a ideia de transformação urbana, independentemente do seu grau ou intensidade, e de melhorias na vida urbana de uma forma geral” (MENDES, 2013, p. 34).

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