capa do livro

Breves Notas ao Ensino de História da Educação

Armando M. Barros

Prezado leitor,

A obra que ora inicia a leitura é composta por um conjunto de textos apresentados sob a forma de “notas preliminares”. Emana dos textos, uma memória de alunos que não esqueço e que me motivaram a um conjunto de aprenderes e de rearranjos de saberes. Intimamente, confesso, sofro a dupla, grata e paradoxal tensão do desafio de, por um lado, conseguirmos realizar belamente a leitura, construindo novos sentidos e, de outro lado, temer que conseguiremos...

A redação dessas notas preliminares respondeu a necessidade de apresentar conteúdos de introdução àqueles que, em sua maioria, encontram-se no primeiro semestre acadêmico da universidade, em cursos de Pedagogia no âmbito das disciplinas de História da Educação dos Cursos de Pedagogia dos campus de Angra dos Reis e de Niterói, da Universidade Federal Fluminense. Portanto, nossos leitores são ingressantes em novas ambiências de ensino e sociabilidade. Nos textos propostos, ambicionei ser sensível a esse perfil de parceiros na viagem que se anuncia, seja na linguagem escrita que adotei, seja nas estratégias didáticas que escolhi, seja na seleção de conteúdos que optei em abordar. Contudo, apesar da flexão verbal, nada que lerá foi feito originalmente apenas na primeira pessoa do singular.

Na verdade, tudo resulta da produção coletiva de conhecimentos, realizada em muitas turmas e com muitos, muitos alunos, co-autores queridos. Seus colegas, leitor, hoje veteranos ou formados, em algum momento de suas vidas estiveram supostamente como meus “alunos”, dando-me a oportunidade luminosa de, muitas vezes, num repente, aprender-me aprendiz e poder oferecer à você a oportunidade da crítica, da eventual apropriação e da indispensável resignificação.

A responsabilidade que temos – eu, supostamente o autor e você que me lê, enganosamente apenas na posição de aluno leitor – é muito, muito grande. Porque ambos estamos em transição e, ainda, em um ritual de passagem. Estamos igualmente frágeis, inseguros e, simultaneamente, entusiasmados por fazer e acontecer... Como diziam os anarquistas ao início do século XX: o que nos liga, professores e alunos, é que desconhecemos muito, ignoramos outros tantos e o pouco que conhecemos, se trocado e acrescentado, nos fará perceber que sabemos muito pouco ainda do mundo. Explico.

Entendo que você, leitor, com quem terei o prazer de conviver, detém uma “história” com características ainda marcadamente fundadas nos Ensino Médio e Fundamental, onde a atuação discente é de modo geral limitada pela grande diretividade docente, imperando uma didática permeada (quando não pervertida) pela memorização e disciplinarização, sendo o processo educacional equivocadamente percebido apenas como conteúdos programáticos, tratados apenas no tempo e no espaço da sala de aula, como de “transmissão de conhecimento” ou, se tanto, ensino-aprendizagem.

Caso consideremos o tempo vivido na pré-escola, nos primeiro e segundo segmentos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, nossos calouros ingressam na Universidade com uma respeitável experiência de 12, 15 anos de escola. Não é algo que deva ser ignorado e vocês são, antes de tudo, “doutores em escola”. Todavia, carregam essa experiência sem o estímulo de maior tratamento analítico e, quando feita, a partir naturalmente do ponto de vista de aluno – o que não é pouco, sendo que esse conhecimento não deve ser ignorado ou perdido.

Considero que existe um grande número de calouros que chegam à Universidade com uma “memória da escola” muito agradável e bela, fazendo-os desconfiar (e as vezes, no íntimo, desejar) que o presente, no curso superior, não seja tão bom quanto o foi no passado – quem pode afirmar que mesmo o jovem não tenha um outrora que ama e para onde, em devaneios, muitas vezes, retorna e de onde, cético, vê e critica a turbulência do presente?

De fato, essa bagagem pessoal de experiências escolares envolve tanto seqüelas quanto belas lembranças na relação com professores, nas amizades que frutificaram com colegas, nos primeiros amores que surgiram, no prazer de trato (ou nem tanto) com conteúdos das disciplinas, nas rotinas cotidianas (entrada, recreio, saída de casa e da escola), nas festas e formaturas. Cada um dos alunos enfim, carrega para a Universidade uma rede de lembranças envolvendo atmosferas sensoriais feitas de burburinho, de cheiros, de sabores, de imagens que remetem não apenas à escola como instituição mas, principalmente, como pregnância e interioridade, que fala à construção de sua própria personalidade.

A escola, portanto, pode ser vista para além do exercício da cognição, dos domínios intelectuais, da construção de hábitos, transformando-se também e principalmente, em espaço de sociabilidade onde os indivíduos se apreendem em permanente construção como sujeitos, (não diria o poeta, “cada um é um universo, porque cada um, é um igual?”).

Frente a essa herança, o que é a Universidade para você, leitor? Talvez um vir-a-ser desconhecido, desejado e, também, um-tudo-ainda-muito-estranho, mas que deseja ser-barato-total. O Curso de Pedagogia pode ser a possibilidade de afirmação de seu amadurecimento, ao mesmo tempo em que quer (mas ainda não sabe) se será tão bom ou melhor que o do tempo da escola fundamental. Além disso, o Curso de Pedagogia é, também, e com toda justiça, a oportunidade de sua afirmação existencial, como resultado de sua vitória pessoal em realizar sonhos frente aos desafios antepostos por uma sociedade injusta e desigual. Chegar portanto à Universidade é, também, um grande e merecido abraço que a Vida dá em sua auto estima.

Temos uma co-responsabilidade enorme. Você, leitor, os demais colegas e eu, em trabalharmos essa inestimável herança, reconhecendo-a como um saber que não pode ser ignorado, dela nos servindo como terra boa para cultivo do trigo e feitura, se a Vida for generosa, de saboroso e partilhado pão. Em decorrência, nosso percurso na obra que inicia irá buscar intensamente sua “Memória” de vida escolar como base de trabalho, articulada e confluente às lembranças para o tratamento da “História” e da “Educação” como “História da Educação”.

Trabalharemos, portanto, ambicionando o trato com a experiência individual e coletiva, enfeixadas por um patrimônio de conhecimentos envolvendo “continuidades” e “rupturas”. Em outras palavras, iremos incorporar metodologicamente a “memória dos alunos” como continuidade, propondo rupturas analíticas, que rearranjem em uma “história da escola”, desconstruindo uma tradição de se considerar a história da educação a partir da escola “vazia”, isto é, sem considerar e registrar a presença dos sujeitos que a tornam polissêmica e que lhe dá, de fato, sentidos múltiplos e muitas vezes contraditórios.

Falo sobre isso porque, creio, firmou-se uma tradição errônea de se considerar apenas uma versão histórica para o percurso da escola, a partir apenas dos rituais, das solenidades, dos programas, dos currículos, dos desfiles, das formaturas, das leis. Sem negá-los como fontes documentais, iremos ampliar nossa visão, incorporando “outras histórias”, outros participantes (professores, cozinheiros, inspetores, pipoqueiro e sorveteiro da frente da escola), outros tempos simbólicos (construídos pela relação dos próprios alunos) e outros espaços que, presentes no cotidiano da escola, são desqualificados como “sem importância educativa” (recreios, quadras, a rua) e discursos (materializados seja nas “colas”, seja na escritura das últimas folhas dos cadernos dos alunos, seja na tampa das mesas discentes ou na porta dos banheiros). Enfim, ambicionamos recuperar um conjunto de conhecimentos que fazem a escola “memorável” e que, sintomaticamente, não é guardada ou registrada. Tentaremos discutir, debater, trabalhar esses conteúdos a partir de um andamento temático cadenciado, através de estratégias fundadas parcialmente em experiência acumulada com outras turmas, bem como na dinâmica que o acaso felizmente possibilita e provoca.

Considere que os primeiros semestres na universidade devem favorecer a passagem (é, como transição) para novas práticas escolares, distinta daquelas vividas no Ensino Fundamental ou Médio. A prática universitária é de diferente natureza, caracterizada por uma maior autonomia do discente e sua co-responsabilidade. A presente obra opera nesse contexto e os capítulos que lerá pretendo que sejam encontros dinâmicos e, quando possível, apaixonantes, envolvendo a minha e a sua experiência pessoal.
Nesse contexto, pretendo que, ao final do livro, o leitor disponha de um banco de idéias e conteúdos, como capital acumulado, permitindo-lhe difundir, aperfeiçoar e ampliar esses conhecimentos em futuras oficinas, cursos e reuniões com seus professores ou alunos, quando pedagogos atuantes.
Quero dizer que também trago como bagagem uma “memória” e sinto-me também em transição, como aluno que fui e sou e como professor de diferentes turmas em cursos de “História da Educação”. Isso porque, quando da elaboração e tratamento das “notas preliminares” ainda atravessou-me em névoa imagens translúcidas, nas quais desaguam a realização intelectual e a emoção do afeto que não se encerra: de lugares onde alunos doutros tempos fizeram visitas maravilhosas; a percepção da transpiração presente nos debates e da audição cúmplice, dissolvendo em risos o nervosismo e a adrenalina de minhas exposições em temas complexos ou dos alunos, quando de seus primeiros seminários; a fraternidade do carinho dos depoimentos e das críticas ao fim do Curso.

Agradeço de antemão o prazer de partilharmos essa curta e intensa viagem. Advirto que ela não será simples: para termos sucesso em cursá-la, fazendo seu estranho percurso, temos que estar abertos a formas diferentes de trabalhar, pensar, interagir com esse algo agora, ainda, estranho e diferente do que até aqui pensávamos que fosse o ensino de “História”. Numa metáfora, teremos que caminhar juntos, dependendo um do outro, como que olhando ao mesmo tempo para a frente (visão prospectiva, do horizonte e do futuro), para trás (visão em perspectiva, contemplando e recuperando o passado) e para nós mesmos (visão sobre o presente, tão fugaz e que agora, já-era). Para fazê-lo, caminhando, teremos que alternar momentos em que um de nós andará de costas, olhando para trás, ao mesmo tempo que apoiado, ombro-a-ombro, confiando no olhar do Outro, que andará olhando para a frente. Só assim veremos o todo: vendo, por nós mesmos e vendo, também, com o olhar do Outro. Assim, portanto, poderemos ver mais e melhor pois a partir de diferentes pontos de vista. Para tanto, é preciso irmos ombreando, de mãos dadas. Como fazê-lo sem estranhamentos? Talvez parte da resposta esteja em irmos de mãos dadas. Assim sugere o eterno jovem, Carlos Drummond de Andrade:

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso a Vida e olho meus companheiros,
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles considero a enorme realidade.
Não nos afastemos. Não nos afastemos muito.
Vamos de mãos dadas.

O livro portanto que inicia é resultado de um trabalho coletivo, fundada em pessoas, alunas do Curso de Pedagogia de Niterói/UFF, com quem partilho cumplicidades, adesões, entusiasmo e um desejo sincero de aprender de forma fraterna, sabendo que a cognição articula-se ao sabor, ao sentimento ao prazer. Assim, bem-vindo ao tempo dessa leitura. Que se divirta, caminhando de “mãos dadas” pelas veredas da escrita para, num repente (quem sabe?) perceber-se co-autor e aprendiz!

Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
Morro do Vintém, março de 2003
Armando Martins de Barros

 

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