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Escritos Revelados

Elias Salgado (org.)

O presente volume consta de contos e de poemas, nas categorias adulto e jovem, ganhadores dos concursos que o CCMA do Hashomer Hatzair vem realizando há três anos. O interesse demonstrado refletiu-se no número de candidatos que a eles acorreram e deles participaram. A boa organização dos eventos por parte do CCMA na pessoa de seu coordenador Elias Salgado permitiu o êxito do empreendimento que, esperamos, continue por muitos anos.

O CCMA possibilitou, ainda, a publicação dos vencedores em cada categoria, a que acrescentamos os merecedores de menção honrosa, perpetuando-se em uma divulgação que faz com que os concursos não se esgotem em si. Ressalto a importância dessa publicação com a divulgação dos trabalhos vencedores, o que permitirá a análise das tendências atuais.

Com esse concurso, o CCMA homenageia o escritor Moacyr Scliar, um “shomer” desde a sua juventude, e rende um tributo ao homem de letras, de grande talento, obra múltipla, marcada pelo humor que convive com o fantástico. Investigador da tradição judaico-cristã, é autor representativo da literatura brasileira e vocação de universalismo. Scliar, narrador denso e original, tantas vezes premiado, possui textos adaptados para o cinema, teatro e tevê, e é colaborador dos principais órgãos de imprensa do país. É dos intelectuais mais criativos do momento literário brasileiro, autor de personagens inesquecíveis e tramas bem construídas, em um universo polifônico, de permanente indagação sobre a existência.

Todo concurso literário, como um estímulo à criação, oferece a oportunidade de descobrir novos talentos, novas vocações, e torna possível a expressão de estreantes - ou não (já que todos se apresentam com pseudônimo). Um concurso é sempre uma aposta na fecundação agitada que resulte do nível dos trabalhos, do interesse dos participantes e da imparcialidade
dos jurados.

Os textos aqui reunidos pretendem dar oportunidade a seus autores de tornarem conhecidos seus anseios, bem como de expressarem preocupações de foro íntimo, definindo seus próprios espaços, o compromisso entre o real e o poético. Mais do que isso: a capacidade de constituírem um sistema de interpretação do ser e do mundo em que vivemos; a palavra como manifestação de uma ausência que autor e leitor recriam; a revelação do universo, não apenas do mundo físico e exterior, mas sua projeção íntima e interior.

Os textos que tivemos ocasião de ler e premiar mostraram preocupação com seu tempo, em diálogo com a contemporaneidade, onde inscreveram seus desejos, seus afetos, seus deslumbramentos, preocupados com a cidade em que vivem e com os seres humanos, condenados ou não a seus destinos - e também com aquele que está reservado ao povo judeu.

Os poemas, construídos com ecos do próprio cotidiano, levaram-nos a encarar a poesia como uma procura dos particulares e das diferenças, revelando novos ângulos de experiência, a presença do que está ausente, a comunicação multiforme da vivência íntima. Neles aparece uma galeria de personagens, de sentimentos e de emoções estéticas, repositório de estados de alma.

Contar bem uma história e torná-la interessante - eis o objetivo do conto; os textos vencedores bem o demonstraram. Contar bem exige um hábil e ágil domínio de recursos e meios, processos e expedientes, sobretudo os narrativos, uma ação dotada de lógica, coerência, plausibilidade nas situações e nos seus desenvolvimentos, através de uma narrativa abundante
de registros pertinentes e fluentes, marcada por flexões diferenciadoras, de um estilo pessoal. O importante é que o conto ou o poema ouse para além da tradição, em sua concepção e construção. O texto ficcional, ao conter elementos da realidade, neles não se esgota, pois são “realidades” transformadas pela natureza do mundo imaginário, ora como crítica do real, instaurando um universo, unindo autor, leitor e texto, que dialogam em co-autoria, assumindo a palavra como matriz estrutural na dinâmica gerada pela fala.

Em relação aos contos, a prática da escrita como ficção e representação do mundo, ao lado de uma reflexão sobre a relação entre linguagem e pensamento e também sobre a linguagem como modo de relação entre as pessoas, observa-se a necessidade de criar uma realidade ficcional para melhor perceber as coisas e as pessoas. De olhar as coisas, senti-las, cantá-las e
interrogá-las para saber mais dobre elas, especialmente quando o discurso provoca o conhecimento das coisas habituais.

Tivemos ocasião de verificar como os autores se relacionaram com o universo, com a realidade; observamos as relações entre a palavra e o ser, quando o autor, regressando à linguagem, refere-se ao mundo. Através dos participantes, da heterogeneidade dos textos e da pluralidade dos núcleos de significação, recebemos um leque das visões do mundo contemporâneo, textos que inventam e imaginam a própria experiência, oferecendo ao leitor a fruição do processo imaginativo. Por tudo isso, tais textos manifestam a possibilidade humana de conhecimento através da literatura.

Desejo manifestar o júbilo de trabalhar em conjunto com as professoras Miriam Halfim e Nancy Rozenchan que comigo leram os textos e os julgaram.

Bella Jozef

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Frações

Luiz Cláudio Dias Reis