capa do livro

Como se fosse da família

a relação (in)tensa entre mães e babás

Liane Maria Braga da Silveira

Adriana Vianna

Apresentar o livro de Liane Silveira é, para mim, um grande prazer e uma responsabilidade ainda maior. Escrito originalmente como tese de Doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, sob orientação do saudoso prof. Gilberto Velho, o livro nos leva a um universo denso de relações sociais marcadas por desigualdades de toda ordem, emoções contraditórias – ou ambíguas, como prefere a autora – e sutilezas cotidianas. Concentrando-se no rico e pouco estudado mundo das relações entre babás, patroas, crianças e famílias, o trabalho de pesquisa por ela realizado nos leva a conhecer e a refletir sobre questões que, embora chocantemente próximas e visíveis nas ruas ou vizinhanças, são tornadas opacas e apagadas tanto no cotidiano, quanto nas reflexões teóricas sobre a sociedade brasileira.

Como bem lembra a autora, ao falar de seu tema de pesquisa para babás ou mães, à reação imediata de espanto ou surpresa sucediam-se sorrisos e uma profusão de histórias, como se a simples menção ao tema tivesse provocado esse desejo de falar sobre aquilo que sabemos ser importante em nossa vida, mas, ora, não parece relevante o bastante para ser tornado objeto abalizado de escuta, ainda mais da escuta de pesquisadores! E escutar, além de ver, é algo que Liane Silveira faz com maestria ao longo de seu trabalho de campo minucioso e cotidiano. Partindo do dia a dia em uma praça da zona sul do Rio de Janeiro, ponto de afluência de muitas babás com as crianças sob seus cuidados, além de eventuais mães, ela estabelece redes que se desdobram e oferecem, para além da observação participante da pracinha, a possibilidade de contatos mais aprofundados. Um dos resultados alcançados a partir desse trabalho de escuta atenta, perspicaz e empática é o deslindamento de múltiplas perspectivas, tensões e formas de viver e elaborar as relações presentes no mundo dos cuidados domésticos realizados pelas babás. Não à toa, em diversos momentos do texto somos tomados pela comoção, pela raiva, pelas simpatias e antipatias que nos transformam também em parte desse complexo de emoções de que o trabalho doméstico está encharcado.

As relações entre dinheiro e afeto; trabalho e família; hierarquia social e intimidade, bem como as que envolvem outros pares simultaneamente antagônicos e complementares, aliás, é um dos pontos fortes da sua pesquisa. Através da malha que formam, podemos entrever algo das relações profundamente desiguais entre grupos e classes sociais no Brasil urbano. Mas também entrevemos concorrências e discordâncias intraclasses, como demonstrado em detalhe pela autora nas formas pelas quais as babás entrevistadas falam de suas proximidades e distâncias com as empregadas domésticas ou com as funções que a elas são/deveriam ser atribuídas. Atravessando essas tensões intra e entreclasses, encontram-se os processos e projetos de individualização, visões de mundo distintas, universos morais concorrentes.

Nesse sentido, o trabalho de Liane Silveira filia-se claramente, tanto em termos metodológicos, quanto conceitualmente, à linhagem de pesquisas de antropologia urbana criada no Brasil por Gilberto Velho. Destaca-se, em especial, a importância das formas de negociação da realidade percebidas por Velho como “processo complexo, difícil, frequentemente chegando a conflitos e impasses não só entre grupos e indivíduos, mas também a processos em nível interno individual”. O desejo de dar prosseguimento aos estudos, expresso por várias babás entrevistadas; o medo de estar vivendo apenas a vida dos patrões e não a sua própria, a percepção de estar sendo constantemente vigiada e olhada; o ajuste difícil entre patrões e babás em relação aos espaços da casa, à divisão do tempo e mesmo à expressão de afetos por ou pelas crianças, bem como as potenciais acusações de não serem “boas babás” ou “boas mães” fazem parte desses processos complexos e frequentemente angustiantes de negociação da realidade.

Ao atentar para os argumentos mobilizados pelas envolvidas, optar por reproduzir extratos às vezes longos dos depoimentos dados e levar a sério os temores e desejos expressos nas entrevistas formais ou nas conversas feitas em diferentes condições com a pesquisadora, Liane Silveira permite que percebamos os fios em que tais atores sociais encontram-se enredados, tanto em termos de suas condições sociais, quanto de seus universos de valores, e que compreendamos e levemos a sério seus interesses, escolhas e formas de agir. Ou seja, que os respeitemos efetivamente em sua agência social, entendida como sua capacidade de orientar-se no mundo a partir da compreensão que elaboram sobre ele.

A opção por centrar a análise na díade babás-mães obedece, assim, parcialmente àquilo que se apresentou para os próprios atores sociais como o elemento mais central da condição de ser uma babá ou de contratar uma pessoa para sê-lo. Embora muitas outras relações estejam presentes e sejam indicadas ao longo do trabalho, como as que envolvem outros parentes da criança que é o centro dessa relação, mas também filhos e filhas das babás ou ainda suas famílias, é nessa díade feminina que se distribuem as principais tensões materiais e simbólicas evocadas pelos entrevistados. Significativamente, os pais/patrões aparecem como figuras de segunda ordem de importância, o que nos coloca questões muito importantes a serem desdobradas sobre as estreitas conexões existentes entre relações de gênero e relações de dominação abrangentes.

Cabe notar, ainda, que se trata de um livro extremamente oportuno para refletirmos sobre o processo contemporâneo de mudanças na sociedade brasileira. Conforme dados apresentados na Introdução a partir de pesquisa da Organização Internacional do Trabalho, há poucos anos tínhamos cerca de 600 mil pessoas desempenhando atividades de trabalho como babás, para não falar de outras atividades de trabalho doméstico. Não se trata, obviamente, de um universo homogêneo e muito menos estagnado. Projetos de profissionalização de diferentes ordens atravessam todo o livro, bem como avaliações críticas sobre as condições de trabalho ofertadas. Se pensarmos na reação que as mudanças trabalhistas relativas ao trabalho doméstico recentemente implantadas suscitaram, podemos ver com clareza a profundidade dos conflitos presentes nesse processo de mudança. Nesse sentido, o livro tem como marca a densidade que de que só as boas etnografias antropológicas são capazes, dando-nos a chance de ver em profundidade algo das pessoas concretas que estão no centro de tais transformações sociais e históricas mais amplas.

Por fim, é impossível, para mim, terminar essa apresentação sem falar um pouco daquele que, em verdade, deveria tê-la redigido – e que o faria muito melhor que eu. Gilberto Velho, orientador de Mestrado e Doutorado da autora, acompanhou esse trabalho como de praxe: com rigor, constância e boas doses de humor. Pude ver um pouco de seu modo de orientar ao participar de bancas e qualificações de seus alunos e alunas e sempre me chamou atenção a combinação primorosa de objetividade e generosidade que tinha com os trabalhos em andamento e também conosco, seus colegas. Tendo entrado como professora para o PPGAS/Museu Nacional apenas em 2005, encontrei em Gilberto, não sem alguma surpresa, um colega sênior extremamente atento, curioso e gentil. Foi sem dúvida tão generoso com a colega novata, quanto era com seus estudantes. Que a publicação desse trabalho lembre-nos um pouco mais o quanto ele contribuiu, dessa vez como orientador, para a produção de perguntas, inquietações e reflexões sobre o mundo em que vivemos.

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