capa do livro

TeleVisões

Reflexões para além da TV

Ariane Holzbach e Mayka Castellano (org.)

No cenário contemporâneo de produção, distribuição e consumo de audiovisual, a televisão desempenha um inegável protagonismo. Enquanto objeto técnico integrado ao cotidiano doméstico, sua materialidade há muito já transbordou o utensílio luminoso que ornamenta as salas de estar, desdobrando-se em múltiplas e variegadas telas: dos sofisticados televisores multifuncionais, passando por smartphones, tablets, consoles e computadores com alta velocidade de conexão à internet, até chegar aos aparelhos de extensão corpórea, como os óculos de realidade virtual e aumentada.

Não bastasse isso, a própria natureza da emissão televisiva se reconfigurou, não mais se limitando à radiodifusão de sinais através de ondas eletromagnéticas ou à transmissão de pulsos eletrônicos via cabo. Hoje, a importância da televisão distribuída pela internet, seja por serviços de video on demand ou pela reprodução dos sinais em aplicativos ofertados pelos próprios canais de TV, representa a emergência de novos modelos de negócios e práticas espectatoriais também inéditas, tornando a televisão um objeto ubíquo tanto como materialidade comunicacional quanto como produtor e reprodutor dos fatos culturais e do imaginário social de nossa época.

Para lidar com as transformações por que passou a televisão nos últimos 20 anos, a academia se viu obrigada a importantes inflexões no campo. Alguns termos que foram seminais na constituição dos chamados “estudos de televisão”, como os conceitos de fluxo, grade, programação, intervalo, seriado, gênero, formato, audiência ou mesmo canal/emissora, precisam hoje ser reavaliados à luz das mudanças em curso, exigindo de nós, pesquisadores, o desafio de não apenas insistir na necessária empiria de nossas análises, mas também de enfrentar, no horizonte mais abstrato, os dilemas teóricos que nos cercam inapelavelmente.

Nesse sentido, ao propor uma investigação plural e diversificada desse fenômeno, TeleVisões – como o próprio nome já indica – aposta na natureza heterogênea da experiência televisiva contemporânea. Nos capítulos que o compõem, este livro serve como um necessário compêndio dos problemas teórico-metodológicos que o campo enfrenta, uma vez que cada texto circunscreve objetos empíricos muito claros sem abdicar da indispensável articulação conceitual entre produção, distribuição e consumo como característica determinante do circuito comunicacional em que a televisão se insere.

Portanto, sem se afastar da pergunta ontológica que persegue o nosso campo enquanto espaço específico de produção do saber – afinal, o que é televisão? –, este livro nos dá, já em seu título e, sobretudo, em seus capítulos, uma solução prática: longe de uma definição absoluta com limites claramente erigidos, a televisão pode ser entendida hoje como um objeto plural, de natureza quântica, que transcende um recorte cronotópico totalizante e se dissipa em múltiplas práticas comunicacionais, cada qual disputando, a seu modo, os aspectos tecnológicos, culturais, sociais e institucionais que circundam a experiência televisiva. Por isso, temos neste livro um espaço oportuno para observar analiticamente essa multiplicidade, cientes de que, a cada toque no controle remoto, na tela do celular, no cursor do mouse ou nos botões do joystick, a televisão estará ali, dissolvendo as fronteiras de sua própria identidade para se tornar, naquilo em que se prolonga, a melhor imagem de si mesma.

Boa leitura.

Marcel Vieira Barreto Silva

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