capa do livro

Políticas periféricas para um design responsável

Beatriz Russo e Lilyan Berlim (orgs.)

Ao escrever ‘As ciências do artificial’, em 1969, Herbert Simon disserta sobre uma estrutura intelectual que busca acomodar uma série de fenômenos empíricos que são “artificiais”. Em seu trabalho, o termo “artificial” é utilizado a fim de denotar sistemas que possuem forma e se comportam de forma específica apenas porque se adaptam – ou são adaptados – ao seu ambiente. Sendo assim, tanto o mundo criado pelo homem quanto o próprio homem, que aprendeu a adaptar seus comportamentos às suas criações, são sistemas artificiais que funcionam como interfaces entre os ambientes internos e externos. Enquanto os ambientes são regidos pelas ciências naturais, as interfaces que os conecta são reguladas pela ciência do artificial: o design. A perspectiva do design como a ciência do artificial nos mostra que a crise socioambiental não está nos ambientes, nem nas pessoas em si, mas nas interfaces que criamos com o natural, na nossa intenção para esse design, nas políticas que propomos para o nosso design.

A partir desse olhar, compreendemos um deslocamento subjetivo da agenda industrial para a complexa agenda que permeia as interfaces, as relações entre os seres humanos, suas necessidades e o planeta. Tais relações são, ou, como aqui propomos, deveriam ser compreendidas como essenciais ao design. Conhecê-las melhor e internalizá-las pode resolver uma miríade de problemas “de design” que já não mais podem ser jogados para baixo do tapete.

Uma das mais significativas definições do design, condensada no livro Design for the Real World (Design para o Mundo Real), publicado em 1971 por Victor Papanek, pioneiro na discussão da ética e do papel social do design, remete às questões éticas e sociais orientadas pelos problemas da sociedade. Papanek fala de um design que tem como intento a melhoria das condições de vida, tanto de determinados grupos quanto da sociedade em geral. Desde sua publicação diversos designers têm se envolvido com a questão socioambiental no intuito de compreendê-la e, assim, minimizar os impactos negativos do design na interface entre a sociedade e a natureza, e maximizar sua qualidade na adequação e no propósito do mundo artificial. Das ideias de Papanek surgiram alguns termos como “ecodesign”, “green design” e “design sustentável”, termos que reconhecem os desdobramentos discursivos do projeto de um mundo artificial que respeita a natureza e o ser humano. Dentre as possíveis denominações, gostamos de chamar de “design responsável” aquele que gera interfaces justas entre o negócio, o produto/serviço e o humano.

Embora a história do design tenha se fundamentado ao redor da emergência da padronização da produção após a Revolução Industrial, cuja mecanização possibilitou a reprodução em série de artigos úteis e baratos, os movimentos ambientalistas que começaram a ocorrer ao longo da década de 60 foram fundamentais para a estruturação filosófica e política do que seria um “design emancipado”, que não limita a satisfazer as necessidades industriais e capitalistas, mas que atua nas interfaces como um agente de mudança na sociedade.

O design industrial surge em oposição a uma manufatura que abraçava o conjunto de habilidades de uma série de indivíduos, os artesãos, detentores do conhecimento e dos meios de produção. Para ajudar nessa transição, foi preciso dissociar o objeto de sua manufatura (MOZOTA, 2003 apud DEMARCHI, 2011) e transformar a política de projeto das interfaces. O designer – que possui habilidades específicas, que é detentor de seus conhecimentos, pensador dos próprios meios e modos de produção – precisou ser substituído por máquinas e operadores em nome da escala de produção, do lucro alto. Foi apenas quando o design juntava esforços para se estabelecer como disciplina – no início dos anos 70 – que voltou a integrar os processos tradicionais da artesania e modelos (agora periféricos) de produção, que contemplam a proximidade de produção e a pequena escala. Mais tarde, ao se reconhecer como uma área de cunho interdisciplinar, o design passou a ocupar espaços em organizações, assumindo responsabilidades “inovativas” nos processos de adaptação de serviços e/ou produtos realizados em série (DEMARCHI et al., 2011). No entanto, nessa tarefa de gerar inovações para um sistema já em colapso, o designer retoma sua consciência: entende que é dele a responsabilidade de orquestrar interfaces e que é dele a responsabilidade sobre os resultados orquestrados. Hoje, essa responsabilidade se traduz em uma série de movimentos, uma série de narrativas (ainda) periféricas sobre como podemos – como designers dessa interface natural/artificial – projetar com (e para a) equidade.

Ao falarmos de “políticas periféricas”, damos visibilidade aos movimentos contrários ao mainstream, gerados a partir de narrativas insurgentes, que questionam a apropriação privada de recursos naturais, as distâncias de distribuição e produção, o consumo exacerbado, os materiais empregados, o lixo gerado, o desperdício, a poluição, a rapidez na produção, a linearidade do sistema produtivo, etc. Tais movimentos entendem o design como um processo relacional fundamental entre todos os aspectos da produção e do consumo; um processo que, diferentemente dos paradigmas anteriores, não considera a degradação social e ambiental como apenas uma externalidade.

A responsabilidade

Veja também

capa do livro

Corpos, imaginários e afetos nas narrativas do eu

Denise da Costa Oliveira Siqueira (org.)

capa do livro

Ensaio sobre a pergunta

Uma teoria da prática jornalistica

Maria Luiza Franco Busse

capa do livro

Divulgação científica

faces em reflexão

Mario Newman de Queiroz (org)

capa do livro

Design e Economia Criativa

ensaios para um campo plural

Mirella De Menezes Migliari (org.)

capa do livro

Nostalgias e mídia

No caleidoscópio do tempo

Lucia Santa Cruz e Talitha Ferraz (orgs.)