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A guerra dos artistas

Dois episódios da história brasileira durante a Segunda Guerra Mundial

Orlando de Barros

Talvez tenha sido com George Cohan, entertainer norte-americano, durante a Primeira Guerra Mundial, que a cultura de massa nascente tenha assumido sistemática e definitivamente o papel crucial de incentivar e mobilizar as multidões para aceitar as agruras da guerra e provocar o ardor patriótico nos combatentes. De fato, é memorável o grande sucesso de Caruso, em 1917, com a canção “Over There”, criada por Cohan, tão importante para obter do cidadão comum norte-americano o aval desejado pelo presidente Wilson para a intervenção militar a ser feita numa guerra distante e “dos outros”. No Brasil, que também participou daquela guerra com o grande aliado do norte, houve pouco resultado no meio artístico, senão, quiçá, com uma ou outra cançoneta de teatro de revista.

Um quarto de século mais tarde a situação já era bastante distinta. Em 1942, quando o Brasil entrou na guerra, as emissoras de rádio já estavam dotadas de aparelhagem eficiente e contavam com pessoal técnico e artístico capaz de atingir, com diversos comprimentos de onda, todo o território brasileiro e mesmo estrangeiro. Foi a mídia de maior importância durante a guerra, pelo seu alcance espacial e social, e também por ter servido como suporte para outro elemento crucialmente importante, as canções. Durante a guerra chegou ao auge a canção de exaltação, interpretada pelos maiores astros dos auditórios e das gravações fonográficas. Juntou-se a esses esforços o experiente pessoal do teatro, especialmente o do chistoso teatro de revista, sempre disposto a desancar o inimigo e a enaltecer sem limite os aliados. Vargas, que se permitia deixar de lado, vez por outra, as graves responsabilidades para ir assistir, como cidadão comum, as peças de revista, divertia-se a valer, inclusive com os papéis de si próprio, confiados a artistas já naquela altura especializados em representar nos palcos o presidente do Brasil, como Pedro Dias, não sem antes ter havido uma atenciosa “verificação” da peça pela divisão de teatro do DIP. Também os cassinos do Rio reuniram-se ao esforço geral em seus shows exibidos Brasil afora.

O cinema teve papel menos enfático, exceto, talvez, pela chanchada Berlim na batucada, justamente porque o grande aliado na guerra, os Estados Unidos, mantinha um estreito controle do sistema exibidor brasileiro para os filmes produzidos em Hollywood. Mesmo assim, com tanta profusão de filmes de guerra feitos mundo afora, o cinema “nacional” também não deixou de produzir os seus, mas foi um melodrama musical que se transformou num filme de guerra por excelência, Moleque Tião, com o qual pretendiam os sócios da Atlântida enfrentar o verdadeiro inimigo, o cinema norte-americano, e seus aliados, os proprietários de cinemas espalhados pelo país.

O aprendizado da mídia brasileira e dos artistas e demais criadores culturais durante o conflito foi um bem precioso, mais tarde amplamente empregado na publicidade e nos recursos da mídia. Mas também pode-se dizer que, sob a influência do famoso Bureau comandado por Nelson Rockfeller, tornaram-se bem mais permeáveis os costumes e o gosto brasileiro, deixando-se atrair demasiado. A guerra ajudou a apontar o futuro ao Brasil, sobretudo como projeto de país moderno, mas também o lançou numa crise de falta de confiança em suas instituições, frustrando aqueles que, no front cultural, haviam patrioticamente depositado inabalável confiança no país e em seus governantes. Por fim, louve-se o texto preciso e bem documentado do experiente autor, que tem militado por décadas nas lides universitárias. Em tudo este livro é notável.

Marilena Ramos Barboza

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