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Uma história em construção

O marxismo de ontem e de hoje

Lincoln de Abreu Penna

A religião é o gemido da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, assim como o espírito de uma situação sem espírito. Ela é o ópio do povo.

A supressão da religião enquanto felicidade ilusória do povo é a exigência de sua felicidade real.A exigência de que ele renuncie a suas ilusões sobre sua situação é a exigência de renunciar a uma situação que necessita das ilusões.

(Karl Marx)

O propósito inicial deste texto era oferecer ao leitor uma breve sistematização ou pequeno balanço da trajetória do marxismo. Uma espécie de inventário das muitas ideias formuladas por Karl Marx e Friedrich Engels, que deram lugar ao marxismo. Durante a elaboração dessas linhas fui abrindo janelas suficientemente interessantes para não as fecharem, mas ao contrário incorporá-las à concepção original deste texto. Com isso, o volume de páginas cresceu e tornou-se impróprio para as dimensões de um artigo.

O que era para ser uma mera comparação do marxismo que vigorou desde a morte de Marx até meados da década de 1950, logo no primeiro decênio após a Segunda Grande Guerra, e desta época até os nossos dias, acabou por conter uma parte adicional em seu início. Transformei-a, então, em Prefácio, porque julguei que era necessário apresentar os fundamentos históricos do ideário de Marx através de seus próprios escritos em colaboração permanente com Engels, e assim procurar demonstrar como surgiram os fundamentos do que se convencionou chamar de marxismo.

Em seguida um apanhado da contribuição de Lênin e a de Gramsci, ambos adaptando o ideário revolucionário de Marx às realidades da Rússia e da Itália, respectivamente, contém elementos capazes de serem incorporados a análises de outras formações sociais, como o Brasil. Daí o pequeno enclave introduzido como tópicos de leitura do processo histórico brasileiro. Uma parte foi publicada anteriormente, aquela que situa aspectos das obras de Lênin e de Gramsci, com pequenas modificações em algumas de suas partes. Assim procedi, ao incluí-lo neste livro, por julgar que era pertinente aqui juntá-lo, uma vez que ele se situa na primeira grande geração que se seguiu à morte de Marx, em 1883 e em seguida de Engels, em 1895.

Nesse inventário sucinto trabalhei exclusivamente com alguns escritos desses filósofos dentre eles o Manifesto Comunista de 1848, o Prefácio Para a Crítica de Economia Política, As Lutas de Classe em França e O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte. Claro que O Capital mereceu referência à parte em razão dele ter sido o coroamento da obra de Marx e Engels e, portanto, quando ele vem a se tornar público em 1867, em sua primeira edição, o marxismo já se encontrava pronto, isto é, o método interpretativo que Marx deixou para a humanidade, como a mais importante de todas as suas contribuições, estava completado e seu principal livro representaria, sem dúvida, o feito definitivo deste método, o da concepção materialista da história.

E foi esse legado deixado por Marx, coerente com suas primeiras reflexões, que se encontra em sua famosa sentença segundo a qual a História é a ciência das Ciências, uma vez que sem o conhecimento do processo social desde os seus primórdios qualquer análise por mais criteriosa perde-se por ser atemporal. A apreensão do tempo histórico é indispensável para que Marx compreendesse, entre outras coisas, as razões das desigualdades sociais. Como elas se originaram e evoluiu até a organização do Modo de Produção Capitalista (MPC), seu objeto central de análise em O Capital. Mas até este livro houve uma longa trajetória intelectual e política, cujos passos mais importantes estão nos escritos mencionados acima. Estes foram redigidos entre as décadas de 1840 e 1850, quando maduro intelectual e politicamente, empreenderia a redação do livro maior de sua volumosa e rica obra.

As duas passagens que abrem este livro, retiradas de O Capital, demonstram a genialidade de Marx e explicam por que razão o marxismo exerce tanto fascínio até hoje. Uma se refere à importância que é atribuída com justiça ao filósofo Hegel, introdutor da dialética moderna; e a outra sua aplicação no processo de trabalho, uma das peças mais significativas da concepção materialista da história fundada por Marx. Quis registrar essas duas passagens para me referir à lógica implantada pelos estudos do autor dessa obra monumental, que iniciada e concebida por Marx teve em Engels seu colaborador precioso e mais do que isto diligente, pois soube retirar das anotações deixadas por seu companheiro o extrato mais denso presentes nos livros 2 e 3 de O Capital.

Publicado há quase um século e meio, essa obra de referência do filósofo alemão foi, no entanto, o ponto de chegada de um relativamente longo percurso intelectual e político. Todas as ligeiras observações contidas neste texto acerca dos trabalhos realizados por Marx e que deram lugar ao marxismo não constituem novidades. Já foram ditas de diferentes maneiras e, em muitos casos, com mais precisão e profundidade. Então, por que redizer? Para acentuar a importância do trabalho empreendido por Marx e Engels, e porque a cada momento histórico é preciso revisitar essa verdadeira bússola do conhecimento do modo pelo qual o capitalismo tem se desenvolvido.

Marx se atualiza a todo instante em razão do caráter lógico e profundo da chave explicativa que criou para desvendar a engrenagem do capital ao longo de sua história. E é tão eficiente o seu método de investigação que não paira dúvidas do quanto é válido e necessário mantê-lo como ferramenta posta à disposição dos que desejam conhecer as realidades mutantes que se desdobram a partir da expansão caótica e sempre contraditória do funcionamento do capital.

Em 2018 acontecerá o bicentenário do nascimento de Karl Marx. Não tenho dúvidas de que até lá nada mudará no que diz respeito à importância e atualidade de sua obra. Como havia dito Pierre Vilar, historiador marxista francês, os fatos históricos do século XX e o emprego de seu método pelos cientistas sociais só validaram suas premissas e suas sentenças vigorosas quanto aos rumos do capitalismo. Em ambos os casos, o marxismo está vivo a instigar a realidade multifacetada e complexa dos tempos atuais. E não é o advento desta sociedade cheia de intrincados problemas introduzidos pela rapidez da expansão tecnológica e científica que torna anacrônico o marxismo, como querem os seus mais ferrenhos críticos. É, ao contrário, a partir do marxismo que poderemos entender os rumos do capitalismo voraz e não menos avassalador.

O que o leitor terá nas linhas que seguem são um misto do que o autor considera os elementos mais interessantes e importantes do marxismo com as considerações em torno de passagens da obra de Marx e de seus mais sinceros correligionários, independentemente de visões nem sempre convergentes acerca de vários aspectos da aplicação do marxismo no terreno prático, a das relações sociais e políticas de sociedades e povos no curso de suas histórias.

E a parte relativa ao marxismo de hoje reúne um sucinto elenco de questões novas a exigir dos marxistas respostas igualmente novas, embora embasadas no instrumental da interpretação que o marxismo clássico legou às gerações que o sucederam. Claro que muitas dessas novas e inquietantes questões e problemas não se encontram definidos neste livro, nem era propósito que assim fosse. Na verdade, elas podem e devem ser acrescidas pelos leitores mais interessados em dar continuidade a essas reflexões, caso as julguem pertinentes. De resto, trata-se de um capítulo cuja construção jamais poderia ser conclusiva uma vez que estamos todos mergulhados num caldeirão de interrogações acerca dos múltiplos acenos dos anos vindouros, seja na perspectiva mais caótica de uma barbárie indesejável ou de uma superação transformadora rumo à sociedade consagradora da justiça social e da libertação das amarras do atraso a condenar ainda multidões.

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