capa do livro

Interpretações do Brasil

Fábio Almeida de Carvalho e João Kennedy Eugênio (Org.)

Desde o primeiro contato com o mundo novo que depararam na virada do século XV para o XVI, os viajantes europeus foram tomados de espanto. A nova terra e sua gente surgiam ante seus olhos como a encarnação de velhas lendas sobre terras maravilhosas, noticiadas pelos antigos, terras aludidas em numerosos textos, originários do paganismo ou da tradição bíblica. No cenário variado do Novo Mundo, o Brasil desde cedo ocupou lugar à parte: carecendo de poderosas civilizações e monumentos grandiosos, da espécie realizada por astecas, maias e incas, parecia encarnar radicalmente a “novidade” do mundo novo, a infância de um mundo ainda no terceiro dia da criação.

A partir daí o Brasil tem fascinado e perturbado. Se o continente europeu representava a “civilização”, o que representaria o Brasil? A questão foi meditada por viajantes estrangeiros – Martius e Gobineau, Keyserling e Lévi-Strauss, nomes que integram uma lista extensa. Ao espanto inicial dos conquistadores juntou-se o estranhamento da elite letrada brasileira, que se debruçou sobre o tema da identidade nacional de forma quase obsessiva. Herdeiro do legado europeu, diretamente do português e imaginariamente do francês, a que se somou o contributo de indígenas e africanos, o país tropical encarnava uma mistura desconcertante e irreprimível. “Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”. Esse trecho de Raízes do Brasil sintetiza uma questão-chave.

Desde a nossa adolescência política, o espanto dos primeiros tempos ganhou novos tons e tornou-se ainda mais intenso: como pensar o legado luso-ibérico, que se identificava com os defeitos da sociedade, e a escravidão de negros e índios no quadro do debate sobre a identidade brasileira? Muitos revolveram essas questões fazendo da indagação acerca de nosso ser, das nossas origens e do nosso lugar no mundo o assunto nutridor de suas obras, ficcionais ou analíticas, verbais ou não verbais: José Bonifácio, Francisco de Varnhagen, Domingos Gonçalves de Magalhães, José de Alencar, Joaquim Norberto, Tobias Barreto, Sílvio Romero, Graça Aranha, Eduardo Prado, Euclides da Cunha, Alberto Torres, Paulo Prado, Oliveira Vianna, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Gilberto Amado, Plínio Salgado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Roquette-Pinto, Arthur Ramos, Jorge Amado, Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Darcy Ribeiro, Roberto DaMatta, entre outros.

Além dessa plêiade de escritores, a reflexão sobre a identidade da nação se faz presente na música (Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, o rock brasileiro dos anos 1980), no cinema (Humberto Mauro, Glauber Rocha, Sérgio Bianchi), nas artes plásticas (Tarsila, Portinari, Di Cavalcanti), na fotografia (José Medeiros). O gume das ideias sobre o Brasil é quase tão afiado quanto revolta a realidade, conquistando por isso novos públicos e mantendo a velha pergunta, sempre renovada: Que país é este? O debate continua com Affonso Romano de Sant’Anna, Diogo Mainardi, Jessé Souza, José Murilo de Carvalho, Fernando Henrique Cardoso, José Wisnik e Walter Salles.

Diferente da Esfinge que exigia de Édipo a resposta correta para o enigma, perecendo ao obtê-la, o Brasil representa um desafio ao entendimento; não requer uma “solução”, mas um conjunto articulado de esforços para torná-lo mais maduro, dotando-o de instituições e leis sólidas, corrigindo o desperdício de vidas e a dissipação de talentos, estimulando a criatividade benéfica e controlando a corrupção. Será bonito quando forem corrigidos os excessos danosos à vida pública (sobretudo a apropriação privada da coisa pública), em benefício do povo que vive e trabalha sob o Cruzeiro do Sul.

Sucessivas coleções de estudos acerca das narrativas de Brasil atestam a permanência de uma fascinação a antigos problemas. Nossa coletânea se inscreve nessa tradição, e o faz como uma variação do tema obsedante, quando menos por não se limitar ao rol dos intérpretes canônicos, antes, alargando o rol de pensadores pesquisados e reunindo ensaístas, antropólogos, historiadores, romancistas, músicos e um fotógrafo.

Demais, os ensaios aqui reunidos permitem que se lance novo olhar sobre esse debate, por exemplo, destacando o diálogo que mantêm os intérpretes mais recentes com seus predecessores. Os modernistas, tão aclamados, são devedores dos românticos e de Sílvio Romero, Graça Aranha e Eduardo Prado, para não falar da colaboração decisiva de Paulo Prado: Mário de Andrade lhe dedicou Macunaíma e ele patrocinou a visita de Blaise Cendrars às cidades históricas mineiras, ocasião que ensejou aos modernistas a “redescoberta do Brasil”. Alguns estudos aqui reunidos (sobre Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado e Eduardo Prado) indicam que o modernismo foi, mais do que se imaginava, fruto do diálogo com intelectuais das gerações anteriores, diálogo ocultado – na medida do possível – pelos modernistas. Outro traço que distingue nossa coletânea é a variedade regional, institucional e disciplinar dos autores, que tornou possível um diálogo genuinamente polifônico no Brasil tão desigual.

A manifesta variedade de recortes históricos e de abordagens teóricas e críticas adotadas pelos autores não impede que mantenham uma relação solidária de reflexão sobre os rumos do pensamento no país do Carnaval. Os ensaios gravitam em torno de como a cultura brasileira foi estudada em profundidade e interpretada não apenas por intelectuais e artistas brasileiros, mas também por estrangeiros (representados no livro por Karl von Martius) que por aqui passaram e legaram contribuição significativa ao conhecimento de nossa realidade e na escrita da nossa história.

Os organizadores agradecem aos colaboradores pela confiança depositada no projeto, ao qual aderiram de forma incondicional. São eles (em ordem alfabética): Abilio Guerra, Alberto Luiz Schneider, Antonio Brasil, Antonio Dimas, Arno Wehling, Cacá Machado, Carolina Fernandes Calixto, Conrado Pires de Castro, Demetrios Galvão, Eli Napoleão de Lima, Eduardo Jardim de Moraes, Enio Passiani, João Cezar de Castro Rocha, José Adilçon Campigoto, José D’Assunção Barros, José Geraldo Vinci de Moraes, José Luís Jobim, Luiz Roncari, Magali Gouveia Engel, Maria Aparecida Rezende Mota, Marilene Weinhardt, Pedro Meira Monteiro, Roberto Acízelo, Robson Cruz, Ronaldo Vainfas, Thaís Chang Waldman, Thiago Lima Nicodemo, Vanderlei Sebastião de Souza. Eles possibilitam com seus trabalhos e sua generosidade que se vá escrevendo outro país, com a esperança que o ato de escrever implica, e que se avive, ainda uma vez, o debate sobre as maneiras de pesquisar, pensar, refletir, configurar e interpretar o Brasil e sua vida cultural.

Dizia Tom Jobim que o Brasil não era para principiantes; aditamos que, quando se trata de Brasil, somos todos principiantes.

Teresina, PI – Boa Vista, RR, maio de 2013.

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