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Conexões Fotográficas

André Soares Monat e Barbara Szaniecki (orgs.)

Sabemos que fotografia não é puro meio técnico, muito pelo contrário, sua emergência se deu graças a condições culturais, sociais, econômicas e políticas singulares, sendo particularmente relevante o desejo de criar meios de registrar com maior precisão e objetividade o mundo e os fatos que nele ocorrem. Diferentemente dos meios imediatamente expressivos e subjetivos como a pintura e a escultura, a fotografia nasceu como uma prática de documentação e de certificação daquilo que, em determinado tempo e lugar, aconteceu. Essa concepção muito se fortaleceu com a bela formulação de Roland Barthes do “isto foi”. Contudo, desde aquele ano de 1980, quando foi publicada A Câmara Clara, as tecnologias digitais mudaram de forma nítida algumas das certezas acerca da autenticidade naturalmente atribuída à fotografia; hoje, ao olhar uma fotografia, instintivamente podemos pensar “isto pode não ter sido”. Este foi o tema desenvolvido pela pesquisa “Tecnologias digitais e autenticidade: o estatuto da imagem fotográfica na linguagem visual contemporânea” por nós realizada na Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro com apoio PNPD-CAPES.

Quase todos os textos que compõem esta publicação foram apresentados na série de encontros Conexões Fotográficas realizada ao longo do ano de 2013, no âmbito desta pesquisa, com o objetivo de enriquecê-la através do debate com outros pesquisadores e profissionais da fotografia, do design e das artes visuais. Nosso propósito mais direto foi o de complementar as análises acerca da questão da autenticidade da imagem fotográfica pelo viés tecnológico com análises que apostam em outras abordagens. Percebemos que, na contemporaneidade, a prática fotográfica tem se articulado com práticas como o cinema, as artes cênicas, a cultura popular, as artes visuais e, claro, entre elas, o design. Esses agenciamentos vêm paulatinamente modificando o estatuto da fotografia na linguagem visual contemporânea e não apenas no que diz respeito a sua natureza de registro cuja veracidade é incontestável. Veremos através dos textos a seguir, divididos em cinco blocos temáticos, alguns aspectos dessas modificações.

O conjunto de textos que compõem o primeiro bloco – Fotografia e autenticidade – traz diferentes nuances acerca da noção de autenticidade. Enquanto o texto de Barbara Szaniecki a confronta com a noção de verdade em Michel Foucault, o de Almir Mirabeau, Breno Bitarello e André Soares Monat apresenta a relação entre fotografia e design a partir de um debate filosófico sobre ciência e tecnologia, com base em autores como Vilém Flusser entre outros. E, por fim, o artigo de autoria de André Monat Soares, Augusto Lohmann e Raphael Argento traz, adaptada à imagem fotográfica e aos nossos tempos de tecnologias digitais, a conhecida hesitação de São Tomé sobre acreditar ou não naquilo que se vê.

O bloco seguinte – Fotografia e Cinema: projeto de imagem, imagem projetada e performada – traz reflexões de Vera Bungarten sobre a grande expansão dos campos do design e do cinema e, como consequência, as possíveis interações e a sobreposições dos mesmos. Também Paola Barreto Leblanc aborda o campo ampliado do cinema apresentando investigação teórica e prática sobre a natureza performativa das imagens através de experiências de live cinema (cinema vivo) e, sobretudo, do seu Cine Fantasma.

O terceiro bloco de textos – Fotografia, autorrepresentação e espaços cenográficos – apresenta o trabalho de autorrepresentação em fotomontagem digital realizado por Helena de Barros desde suas primeiras fotos inspiradas pela personagem Alice no País das Maravilhas e publicadas em seu Fotolog. Já Luiz Henrique da Silva, depois de breve histórico da representação cenográfica, nos apresenta usos instigantes da fotografia em cena.

Fotopintura e Fotografia Expandida: reinvenção das técnicas e tecnologias ‘tradicionais’ é o título do quarto bloco de textos, que traz artigo de Zoy Anastassakis sobre seu encontro com Mestre Júlio e suas reflexões sobre a fotopintura, uma técnica que não desaparece e sim se transforma com o advento das novas tecnologias. Em seguida, o Coletivo Fotoexpandida define a “fotografia expandida” como uma prática que foge do automatismo oferecido pelas técnicas do dispositivo fotográfico convencional e apresenta seu trabalho realizado por meio de saídas fotográficas coletivas em diálogo com a população da zona portuária carioca que passa por processo de gentrificação.

E, por fim, o bloco Fotografia e Arte: Desenho fotográfico e streetphotography é composto por mais dois artigos: o primeiro, de Marcos Martins, traz suas reflexões sobre uma imagem de Rubens Gerchman que parece foto mas é desenho e, nessa ambiguidade, se estabelece numa região entre o “aconteceu” e o “não aconteceu”. No segundo, Victa de Carvalho apresenta, as imagens de rua de Beat Streuli em uma tradição da streetphotography. Contudo, ao focar na banalidade sem a pretensão de fotografar uma verdade das ruas, suas imagens oscilam entre a documentação e a invenção do “real”.

São muitas as conexões entre fotografia e outras práticas artísticas com forte base técnica ou tecnológica. As relações entre as tecnologias analógicas e digitais atravessam todas essas conexões e se reinventam reciprocamente, ao mesmo tempo em que inventam novas práticas, estéticas e maneiras de designá-las. Por fim, todas essas conexões entre diferentes práticas com suas diferentes técnicas e tecnologias e, portanto, seus próprios “regimes de verdade”, também inauguram outras percepções acerca da noção de autenticidade, central na pesquisa “Tecnologias digitais e autenticidade: o estatuto da imagem fotográfica na linguagem visual contemporânea” desenvolvida na Esdi/UERJ e que se encerra com esta publicação. Esperamos que os trabalhos que aqui reunimos possam enriquecer os debates por vir.

André Soares Monat
Barbara Szaniecki


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