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Três estudos introdutórios de Psicanálise

Discussões junto à cultura, a ciência e a escrita

Rogério Lustosa Bastos

Rimbaud estaria certo ao defender que desvelar o sagrado é principalmente não temer caminhar pela desordem de nosso espírito? Ora, ainda de acordo com o poeta francês, se podemos inventar as cores nas vogais, por que temer andar pelas entranhas que ardem?

Embora não tenha dado cor às vogais como esse poeta, Freud, ao criar a Psicanálise, contribuiu principalmente desvelando os “não ditos” detrás das palavras e das cores das diferentes experiências, inclusive para que pudéssemos lidar com o temor dessas entranhas que ardem. Sim, pois com o apoio da Psicanálise, ganhamos maiores chances de andar e compreender um pouco melhor a dita desordem, o caos e alguns desmoronamentos que têm relação com essas ‘entranhas’ da subjetividade humana. Basta lembrar que lidar melhor com elas, antes de tudo, é também recriá-las como dispositivos favoráveis à emancipação humana.

Essa emancipação, aqui, de um lado, pode ser discutida junto a noção freudiana de cultura. Então, neste particular, entre outros exemplos, vemos a defesa de que as psicoterapias não devem ter uma função meramente adaptativa, já que não existe a ordem social supostamente perfeita. De outro, ainda pensando essa emancipação junto a discussão dessas “entranhas”, podemos estar diante de uma Psicanálise que se apresenta como uma ciência estrangeira no diálogo com a ciência hegemônica. Além disto, ainda sob esse debate, é possível também se deparar com um sujeito processual e, por vezes, indeterminado. Evidentemente, afora se destacar como histórico, tal fato se traduz pela possibilidade de se pensar esse sujeito de forma singular frente a uma estilística da existência.

Este livro, de título Três estudos introdutórios de psicanálise: discussões junto à cultura, a ciência e a escrita, de Rogério Lustosa Bastos, em resumo, visa discutir essas questões no desenvolvimento dos seguintes capítulos: 1º – Freud, a cultura e a tanatologia: uma leitura de Marcuse na obra social freudiana; 2º – Psicanálise e o pensamento científico: entre o fisicalismo e/ou a contraciência em diferentes modos de subjetividade; 3º – Psicanálise e escrita emancipatória: discussão entre Deleuze e Joel Birman.

No primeiro capítulo, através da leitura freudiana da cultura, há o debate com as pulsões, inclusive com a pulsão de Tanatos, a qual, em vez de simplesmente se realizar pela função do aniquilamento, pode ser posta a serviço de Eros. Sim, pensar essa pulsão em questão, mas através desse procedimento, para Marcuse, é aumentar a probabilidade de se construir um novo Princípio de Realidade, realizando o sonho de uma sociedade mais justa. No segundo, do ponto de vista de múltiplos autores da epistemologia atual, tratando da discussão do objeto da ciência, veremos que existem várias maneiras de pensá-lo. Neste particular, inclusive, a psicanálise freudiana pode dar sua contribuição, propondo uma contraciência, a qual, longe de ser um saber contrário ao conhecimento científico, trata da criação de uma ciência à margem. No terceiro, por sua vez, debruçando-se sobre a escrita de linha de fuga de Deleuze que visa principalmente criar dispositivos para emancipar o homem (buscando outra maneira de ver, sentir, pensar), debate-se isso junto à escrita psicanalítica de Joel Birman. Em Birman, a propósito, se observa uma escrita que cria uma psicanálise que discute um feminino e um erótico diverso da visão meramente edípica e patriarcal. Aqui, diante do trágico e da condição do desencantamento da sociedade vigente, quer-se pensar a possibilidade de se inventar um sujeito da diferença significativa por meio da estilística da existência.

Retornando ao episódio de que Rimbaud deu cor às vogais e Freud desvelou os múltiplos sentidos detrás da expressão do homem, há ainda aqui uma estranheza que nos chama a atenção a favor dos livros. Quanto aos “livros”, isto se dá aqui não só do aspecto de se produzir experiências que ficam catalogadas nos livros de História, mas também no sentido de que há freudianamente forças pulsionais que estão presentes no homem. Elas, além de inconscientes e nomeadas como a força de Eros e de Tanatos, inspiram-nos por criar novos mundos, entrelaçando as palavras com as “entranhas que ardem”.

Quanto a estranheza, se Colombo descobriu a América e, mesmo destacando-se na história, ainda assim, morreu pensando que chegou às Índias, paradoxalmente, foi Américo Vespúcio que ao desvelar essa descoberta, revelou que não se tratava “desse caminho”, mas da descoberta de novas terras, de um raiar de um novo mundo... Enfim, este último, dando a palavra devida a esse fato e mostrando o que ele significava, acabou tendo a gloria desse novo mundo ser subscrito como América, em homenagem ao seu nome (Américo Vespúcio).

O que isso implica? Implica, sobretudo, que talvez uma cartografia sobre os “não ditos”, como fez Freud, pode nos causar estranheza. Mas, seja através de estudos sobre a cultura, a ciência, a escrita, como é a proposta deste livro, ou junto de outras áreas, a Psicanálise pode também nos dar elementos para que se repense nossa visão de mundo. Sim, se essa estranheza que surge através da palavra sobre as experiências entre as entranhas que ardem, talvez, quando desvelada, possa alargar a nossa forma de construir o sujeito e de ver o caminho pelo qual andamos.

Lizete Quelha de Souza
Professora da Unirio, psicóloga clínica e doutora em Memória Social pela Unirio

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