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Global: tribos, limites, líderes, redes, ecossistemas

Como entender a globalização do século XXI

Roberto Panzarani

Introdução

“Se à primeira não me encontrares, não desanimes.
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera”

Walt Whitman
Canto de mim mesmo

Compreender a globalização que vivemos é uma tarefa que realizamos diariamente. De fato, é impossível para cada um de nós ignorar que vivemos em um mundo altamente interconectado e cada vez menor. Isso nos é lembrado sempre que temos em mãos um smartphone e outros aparatos tecnológicos que utilizamos em nosso cotidiano.

Somos locais, vivemos em nosso território, mas, ao mesmo tempo, somos globais, porque estamos interconectados com o resto do mundo, ou somos nômades e gostamos de visitar lugares diferentes, mergulhar em culturas diferentes, ou acabamos sendo obrigados a fazê-lo por motivos de trabalho, familiares etc.

Mesmo se quiséssemos ser o mais sedentário possível, devido à tecnologia cada vez mais exponencial e intrusiva, somos obrigados a ser globais.

Processos de inovação não mais complementares, mas revolucionárias, obrigam-nos, aliás, a uma atualização contínua sobre tudo o que acontece. Mudanças que antes costumavam levar anos para entrar em nossa realidade, hoje em poucos meses ou dias chegam a mudar a nossa vida cotidiana, a nossa vida profissional, sem que as nossas sinapses neuronais tenham sido ativadas para que possamos entender o que está realmente acontecendo.

Governos e a política em geral não são mais capazes de pôr em prática uma governança da inovação que, sem qualquer orientação ou educação, somos forçados a suportar, e não a gerir de forma responsável, enquanto que todos os nossos processos, nossos hábitos e planos caem como pinos de boliche. O paradoxo é que, como afirma Appadurai: “o mundo em que vivemos é caracterizado por uma lacuna cada vez maior entre a globalização do conhecimento e o conhecimento da globalização. Enquanto o conhecimento do mundo é cada vez mais importante para todos, as oportunidades para adquirir tal conhecimento estão diminuindo”. (Appadurai, 2014)

O absurdo é que isso, além de acontecer nos países que definimos em desenvolvimento, também acontece nos países de cultura milenar, como a Europa, um verdadeiro enigma da globalização.

Os dados recentes sobre a desistência em universidades na Itália são impressionantes. De fato, parece que em 2013 mais de 45% dos estudantes italianos abandonaram a Universidade, a taxa mais elevada na Europa.

É óbvio que os países ou lugares que investem mais em conhecimento e inovação são também aqueles que dominam a economia, como podemos ver no Vale do Silício.

Basicamente, o conhecimento está se expandindo, bem como a riqueza, e evidentemente não é por acaso que seja assim; as duas coisas caminham juntas.

Enrico Moretti, no livro La nuova geografia del lavoro (Moretti, 2013) [tradução livre para o português: A nova geografia do trabalho], traz um exemplo interessante sobre o Iphone que, concebido e projetado em Cupertino (USA), é composto de 634 peças. Os componentes são fabricados em Singapura e Taiwan. A montagem é feita por 400 mil pessoas em Shenzhen. A Apple ganha 321 dólares por cada Iphone vendido, ou seja, 65% do valor, o que resulta na criação de empregos nos Estados Unidos.

Como afirma Alec Ross (Ross, 2016), “uma grande fatia do PIB do mundo deslocou-se para o Vale do Silício, graças a plataformas como Uber, Airbnb, etc. O Vale está se tornado rico como a Roma Antiga. Arrecada os impostos de todas suas províncias. Por impostos entendem-se os negócios pertencentes a estas plataformas. Os anúncios econômicos que há um tempo apareciam nas páginas dos jornais locais, hoje estão no Google; o Pinterest praticamente vai substituir as vendas por meio de revistas e, agora, a Uber domina o transporte”.

Precisamos, portanto, conhecer essa globalização e os processos que a permeiam, mas como? Qual método vamos adotar? Talvez tenha razão Michel Serres (Serres, 2016), o qual afirma que do método nada nasce, e cita o genial Hergé: “começo a partir de qualquer lugar e tudo cresce como hera”. Ao falar do mundo global, Serres também nos lembra que “aquele anel de retroação que nos torna dependente das coisas, na realidade, dependem de nós, funciona desde que produzimos artefatos, ou seja, desde nossos primórdios. Nós os produzimos e, na nossa realidade quotidiana, eles nos afetam. Quem domina o fogo não é mais o mesmo homem, porque o calor transforma a sua alimentação, o habitat, a pele, o comportamento, a fragilidade; já não é o mesmo amigo que usa a escrita, porque esta muda as suas relações, a convivência, a adaptação e a inteligência; já não é a mesma mulher que verifica o celular, pois este remodela o espaço, acelera o tempo, facilita os acessos, aproxima dos correspondentes… Externalizados do corpo, os artefatos voltam nele e o metamorfoseiam. A invenção técnica tem efeitos na inovação humana, ferramentas e máquinas hominizam. Esse processo continua há milhares de anos, e, ruptura após ruptura, acelera ou freia. Tornamo-nos continuamente os nossos filhos”.

Muitas vezes não entendemos ou não conseguimos entender os nossos filhos. Como afirma Serres, o cotidiano, na sua estrutura rotineira, está acabando, e a realidade nos pede processos de adaptação constantes, causados pela tecnologia e, mais precisamente, pela globalização.

A notícia positiva é que estes processos ocorrem. Entretanto, como dissemos, os governos políticos, institucionais, as empresas destinadas justamente a esta tarefa, hoje já não são capazes de atendê-los.

O livro Global narra a globalização a partir deste ponto de vista. Histórias significativas de como o mundo presente, pequeno e interconectado consegue criar com a tecnologia ou inovação do uso dela, experiências organizacionais, sociais, de negócios, de cidadania ativa, de inovação social que dão uma cor diferente à globalização atual e nos ajudam a compreendê-la.

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