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A geografia trágica em Nietzsche

Carlos Alberto Franco da Silva

PRÓLOGO

“Toda verdade é simples.” –
Isso não é uma dupla mentira?

A decisão de escrever um livro que visa aproximar a filosofia de Nietzsche do estudo do espaço geográfico capitalista me colocou diante de um problema: o grande desconhecimento de Nietzsche pelos estudantes e professores de geografia. Há os que nunca ouviram falar de Nietzsche e há os que conhecem o filósofo, mas nunca leram qualquer livro dele. Há ainda os que se recusam a lê-lo por questões ideológicas, religiosas e políticas, pois ficaram sabendo que Nietzsche “era contra a religião cristã, odiava os socialistas, contribuiu para o nazismo e morreu louco”. Diante desse quadro, este prólogo visa a uma breve apresentação de Nietzsche para os leigos antes de qualquer aprofundamento de sua filosofia nos capítulos seguintes. Para tanto, meu ponto de partida é situar Nietzsche num contexto histórico da sociedade moderna europeia e mundial no século XIX, sinalizando as transformações ocorridas. Em seguida, coloco Nietzsche no centro de uma polêmica: sua suposta inclinação ao antissemitismo e ao imperialismo capitalista. Ao término desse debate, destaco, em síntese, algumas das principais contribuições da filosofia de Nietzsche para a compreensão do mundo contemporâneo. Após essa etapa, um confronto entre a filosofia nietzschiana e o socialismo torna-se fundamental no âmbito da discussão de uma alternativa à acumulação capitalista. Por fim, o prólogo caminha para uma justificativa deste estudo a partir da questão colocada: por que Nietzsche é importante para a compreensão do espaço geográfico? Sua importância na definição do mundo como manifestação socioespacial capitalista e sua leitura de um tempo espacial constituem o centro de gravidade da força da filosofia nietzschiana para a geografia.

1 As transformações socioespaciais durante o século XIX

O século XIX foi marcado por importantes transformações na sociedade moderna nos termos da economia, da política, da cultura, da religião e da epistemologia. As transformações foram tão intensas que podemos afirmar que o século XIX se prolonga por todo o século XX, sobretudo nos valores da sociedade capitalista.

Na epistemologia, diferentes paradigmas historiográficos se apresentavam. O romantismo, o historicismo, o positivismo e o materialismo histórico-dialético eram os paradigmas dominantes durante o século XIX. Na filosofia, destaca-se Hegel, que foi de importância capital para o materialismo histórico-dialético.

Na política, os confrontos ideológicos entre socialistas, anarquistas e liberais já se faziam presentes nas ruas das principais cidades europeias. O mais famoso conflito operário foi a Comuna de Paris, em 1871. A invenção política do nacionalismo e a unificação da Alemanha e da Itália alteravam o mapa político europeu e as estratégias de afirmação dos Estados. O nacionalismo europeu contribuía para a imposição de uma poderosa ideologia política em torno da ideia do Estado-nação como elemento de constituição de uma identidade para fora do Estado-nação e como elemento de constituição de uma identidade territorial interna ao Estado.

No resto do mundo, a descolonização europeia da América Latina, a partilha da África, a Revolução Meiji, o imperialismo europeu e americano na Ásia e as migrações internacionais promoviam fragmentações territoriais, mudanças nos mapas dos países e confrontos identitários-culturais por conta das migrações e dos processos de desterritorialização de grupos sociais pelo avanço do capitalismo. O fim da escravidão oficial avançava em diversos países. Além disso, o poder político-religioso era confrontado pelo avanço da secularização a partir do darwinismo e do avanço das ciências.

Em meio aos confrontos políticos, ideológicos e religiosos, a Revolução Industrial e as transformações das redes de transporte, comunicações e energia promoviam uma compressão espaço-tempo traduzida no transitório e efêmero decorrentes da aceleração dos processos de reprodução social do capital. Nas cidades, as transformações na forma-conteúdo do espaço urbano alteravam padrões de arquitetura e de controle social, sobretudo a partir da influência de Paris. As desigualdades sociais, a desertificação da existência do indivíduo pela temporalidade hegemônica do capital e o esvaziamento das forças conformadoras dos saberes e das tradições em diversos lugares do planeta eram sintomas da modernidade capitalista. Por fim, nas artes, sobretudo na pintura impressionista e neoimpressionista, novas formas de desconstrução do espaço negavam as representações realistas a partir do advento da fotografia. A dissolução de tudo que era fixo em uma flexibilidade fluida era a imersão em que a arte já se encontrava.

No século XIX, diante das possibilidades paradigmáticas e das transformações socioespaciais em curso, havia uma alternativa de interpretação da história e do mundo moderno que, até hoje, não tem sido muito considerada pelos brasileiros, sobretudo geógrafos, não obstante sua influência em importantes pensadores do século XX.

A historiografia e a filosofia do século passado foram muito influenciadas por uma janela de interpretação que estava à margem dos grandes paradigmas historiográficos do século XIX. Muitos pensadores de raízes ideológicas diversas, tal como o materialista histórico Walter Benjamin, foram afetados pela ideia da descontinuidade histórica, da crítica ao progresso, da história como arte ou da impossibilidade de alcançar uma verdade histórica definitiva, assegura José D’Assunção Barros (2013). Tal linha alternativa de pensamento desautorizava qualquer existência de uma mão invisível da Providência dialética, da Providência da razão histórica ou da Providência divina que respondesse pelo desenrolar histórico.

A perspectiva histórica da descontinuidade não permitia assegurar que a humanidade caminhava rumo ao melhor dos mundos possíveis, tal como afirmavam Leibniz, Kant, Hegel, Augusto Comte e Karl Marx. Com efeito, o devir finalista e determinado começou a recuar e a ideia do devir passou a ser vista como caos, descontinuidade, imprevisibilidade e incerteza, sem um sentido que não fosse o próprio sem sentido.

Está-se a falar de Friedrich Nietzsche (1844-1900), o filósofo que colocou verdades transcendentes em suspensão e descrença – “A humanidade não avança, ela própria não existe” (NIETZSCHE, 2008d, p. 67). Suas críticas às supostas verdades do socialismo, da democracia, do liberalismo, da moral judaico-cristão e da fé na ciência colocaram Nietzsche em rota de colisão com diversos pensadores, fossem eles de esquerda ou de direita. Todavia, muitos souberam tirar proveito daquilo que, na filosofia de Nietzsche, interessava a seus projetos ideológicos, seja para a mudança revolucionária do indivíduo como artista de si mesmo, seja para associar Nietzsche ao nazismo e considerá-lo antissemita.1

2 Nietzsche no tribunal da história

1 No livro Nietzsche contra Wagner, há um fragmento em que o filósofo afirma: “Wagner condescendeu passo a passo para tudo o que eu desprezo – até para o antissemitismo”. Em Para além do Bem e do Mal (2004c, p. 172-174), Nietzsche declara: “Atualmente, nos alemães vemos umas vezes a estupidez antijudaica. Que se me perdoe por também eu, numa certa e arriscada estadia em terreno muito infectado, não ter ficado totalmente imune à doença […]. Por mais categórica que seja a repulsa do antissemitismo propriamente dito por parte de todos os cautelosos e políticos, tal cautela e tal política não se dirigem por ventura contra o próprio tipo de sentimento, mas apenas contra sua perigosa imoderação, em especial contra a expressão insípida e vergonhosa deste sentimento desmedido [...]. Igualmente seguro é que os judeus querem e desejam ser integrados e absorvidos na Europa, pela Europa. Creio que estão sequiosos por se fixarem seja onde for e serem admitidos, respeitados, acabarem com a vida nômade, com o judeu errante”.

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