capa do livro

Etnografia de documentos

Pesquisas antropológicas entre papéis, carimbos e burocracias

Letícia Ferreira e Laura Lowenkron

O projeto deste livro nasceu dos desafios analíticos enfrentados pelas próprias organizadoras em suas etnografias pelos inquéritos e outros documentos policiais, mas compartilhados também por diversos antropólogos cujas pesquisas de campo foram atravessadas, muitas vezes inesperadamente, por encontros com papéis e outras modalidades de registros burocráticos. As principais dificuldades com as quais nos deparamos podem ser atribuídas ao fato de que, apesar da recente proliferação de pesquisas etnográficas que se debruçam sobre estes objetos e do renovado interesse antropológico pelo tema, ainda não é fácil encontrar trabalhos acadêmicos que discutam ou ofereçam um levantamento mais sistemático sobre os caminhos teórico-metodológicos desenvolvidos e adotados na etnografia de documentos. Este é o principal objetivo desta coletânea.1

Tendo como ponto de partida o pressuposto clássico de que a etnografia é uma das práticas de conhecimento privilegiadas da antropologia social, ainda que seja cada vez mais valorizada e apropriada por diferentes áreas2, este livro visa contribuir para deslocar a centralidade histórica atribuída à expressão observação participante na compreensão do que seja a pesquisa etnográfica. A fim de produzir este deslocamento, buscamos investigar, sem pretender esgotar, múltiplas respostas possíveis a uma pergunta aparentemente simples: o que significa a expressão etnografar documentos3? Esta questão e seus muitos desdobramentos têm atravessado discussões entre diferentes pesquisadores em variadas ocasiões e espaços acadêmicos4, e orientou os nossos debates no Simpósio de Pesquisas Pós-Graduadas (SPG) “Perspectivas etnográficas sobre documentos: possibilidades analíticas e desafios metodológicos”, que coordenamos no 38º Encontro Anual da ANPOCS, em 20145.

Documentos foram um dos artefatos etnográficos historicamente mais negligenciados pela disciplina (Riles, 2006; Hull, 2012). Por isso, encontramos pouco suporte na bibliografia clássica sobre etnografia para entender o significado da tarefa de lidar com registros, tecnologias e peças documentais, que, cada vez mais, é parte importante das atividades realizadas por antropólogos quando estão em “campo”. Buscando contribuir para preencher esta lacuna, o conjunto de trabalhos aqui reunidos ilumina algumas possibilidades analíticas e desafios teórico-metodológicos da etnografia documental com base em pesquisas recentes realizadas em diferentes “campos”. Sem quaisquer pretensões de esgotar essas possibilidades ou de oferecer uma amostra supostamente “representativa” desses desafios, a proposta de reunir tais trabalhos em uma coletânea fundamenta-se no princípio de que é a própria etnografia, em sua multiplicidade e seu caráter sempre situado e relacional, que possibilita expandir os debates teóricos e metodológicos próprios à antropologia.


1 A publicação deste livro foi financiada com recursos do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE) da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), no âmbito do projeto “Dramas de família nos balcões da burocracia: a administração institucional de casos de desaparecimento de crianças e adolescentes no estado do Rio de Janeiro” (processo E-26/203.244/2017).

2 Para uma crítica à popularização recente da etnografia em outras disciplinas e uma defesa sobre a sua articulação profunda com a teoria antropológica, ver Peirano (2008).

3 Para uma interessante reflexão sobre a tarefa de “etnografar documentos”, que nos foi muito inspiradora, ver Vianna (2014). Vale notar que, em nossas próprias pesquisas, esta questão se impôs desde cedo, não apenas pelos universos etnográficos que escolhemos pesquisar, mas também pelos diálogos de orientação com Adriana Vianna, a quem somos gratas por ter nos apresentado estas preocupações analíticas.

4 Ocasiões relevantes para o debate sobre o uso de documentos na pesquisa antropológica no Brasil foram os seminários “Quando o campo é o arquivo: etnografias, histórias e outras memórias guardadas”, “Quando o campo é o arquivo (de imagens)”, e “Pesquisa em arquivos policiais e judiciais: perspectivas antropológicas, históricas e arquivísticas”, todos promovidos pelo Centro de Pesquisa e Documentação de história Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O primeiro desses eventos foi realizado em 25 e 26 de novembro de 2004, e promovido pelo CPDOC em conjunto com o Laboratório de Antropologia e História do IFCS/UFRJ, contando com o apoio da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). O segundo foi realizado em 11 e 12 de dezembro de 2008, e promovido pelo CPDOC em conjunto com o Laboratório de Antropologia e História do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. O terceiro evento, por fim, foi realizado em 29 e 30 de abril de 2013 e organizado pelo Laboratório de Estudos sobre Instituições do CPDOC. Já em agosto de 2015, no âmbito do IV Encontro Nacional de Antropologia do Direito (ENADIR), sediado na Universidade de São Paulo (USP), o tema esteve em debate no Grupo de Trabalho (GT) Antropologia, Burocracia e Documentos. Trabalhos apresentados no GT foram reunidos no dossiê “Burocracia e documentos: olhares etnográficos”, publicado pela Confluências: revista interdisciplinar de Sociologia e Direito (17/03, dezembro de 2015), organizada por Larissa Nadai e Letícia Ferreira.

5 Agradecemos imensamente aos autores que apresentaram seus trabalhos neste Simpósio (Larissa Nadai, Cilmara Veiga, Gustavo Onto e Juliana Farias) e aceitaram o convite de publicá-los neste livro e também ao participativo público deste SPG, composto por Adriana Vianna, Silvia Aguião, Maria Filomena Gregori, Bianca Freire-Medeiros e Jair Ramos, entre outros. Suas questões e contribuições enriqueceram muito nossos debates, bem como o resultado deles sintetizado nesta coletânea.

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