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Conflitos, Gestão e Poder

um estudo de caso em uma agência bancária

Fabiana Meira

O poder se apresenta de várias formas e tipos, levando a uma dificuldade quanto à sua análise. Como resultado das múltiplas abordagens, recebe as mais variadas interpretações. Para corroborar tal assertiva, expusemos aqui algumas fontes de poder existentes e as suas diferentes perspectivas. Nesse sentido, fez-se um debate teórico sobre as concepções do poder, observando-se variadas obras, como Maquiavel (2004); Max Weber (1984, 2004); Foucault (2003); Morgan (1996); Hardy (1994); Mintzberg (1983, 1992); Crozier (1981); e Pagés et al. (1987).

O objetivo principal é mostrar como as políticas de gestão de pessoas são utilizadas para gerir a força de trabalho. Para isso, são abordados vários dispositivos que permitem à empresa garantir o controle e subordinar as forças produtivas dos trabalhadores aos seus objetivos. Cada dispositivo é abrangido por uma ou por várias instâncias, a saber: a política, a econômica, a ideológica e a psicológica.

A instância política engloba um conjunto de técnicas de administração a distância, as quais garantem a obediência às diretrizes da organização. A econômica, uma política de altos salários, ascensão na carreira, reduzindo as discriminações de diplomas, sexo, família e meio social de origem que medeiam a aceitação de um trabalho excessivo. A instância ideológica contempla um sistema de representação que os detentores do poder utilizam para mascarar a realidade; ela busca reforçar a imagem positiva do papel da empresa, não deixando que o indivíduo se conscientize das contradições das políticas empresariais e sociais que estejam subentendidas. E a psicológica favorece a integração dos trabalhadores à empresa, pois atua no nível inconsciente, no qual a organização funciona ora dando prazer, ora angústia (privilégios-restrições) ao indivíduo.

Na realidade, este trabalho foi elaborado com a intenção de provocar uma reflexão sobre o modo como as políticas de gestão de pessoas instrumentalizam práticas de poder. Nessa perspectiva, o âmago desta pesquisa gira em torno da seguinte questão: Como os gerentes da agência bancária estudada interagem com as políticas de RH da organização, a qual se utiliza de processos subjetivos e cognitivos para influenciá-los?

Nesta pesquisa, os objetivos específicos são:

  • Identificar, descrever e analisar a política da organização, ou seja, quais as principais práticas de RH aplicadas pela organização sobre os gerentes para gerir a força de trabalho.
  • Discorrer sobre as principais discussões teóricas sobre o Poder; tanto na sociedade de uma forma geral quanto nas organizações.
  • Estudar as principais práticas de RH utilizadas na organização para melhor gerir a força de trabalho da gerência média, ou seja, como os sistemas econômico, político, ideológico e psicológico são usados sobre os indivíduos pela organização bancária analisada.

Também, o estudo apoiou-se em dois “pilares”: teórico e prático. O primeiro relacionado à necessidade de estudar, de forma aprofundada, o tema proposto, buscando consolidar os conhecimentos obtidos, por meio de várias leituras acerca do poder, resultando no crescimento e desenvolvimento da compreensão do assunto.

Ao mesmo tempo, procuramos aplicar a teoria à prática das organizações, isto é, realizar uma discussão teórica sobre Poder, analisando-o quanto às relações entre a organização e o trabalhador e contribuindo para ampliar o conhecimento na área de estudos organizacionais; para tanto, entre todas as obras abordadas nesta pesquisa, o autor que melhor permitiu a análise do objeto empírico foi Pagés (1987).

Ainda pretendíamos, inicialmente, entrevistar todos os funcionários da agência bancária, com exceção dos administradores da cúpula; porém, percebemos que nem todos os funcionários da agência eram acometidos pelas políticas de RH que este estudo aborda. Tal fato foi constatado quando dois funcionários da agência foram entrevistados e, pela análise das respostas obtidas, constatamos que as políticas de RH usadas pela organização não os influenciavam ou, em muitos casos, nem mesmo existiam. Assim, a análise das entrevistas destes funcionários não permitiu a análise do âmago principal desta pesquisa. Tal fato pode ser justificado devido a não existência de metas para os que não são comissionados com cargo de gerente.

A relevância do tema para a área acadêmica está apoiada na premissa de que “o Poder está presente em qualquer relação” e, para melhor compreender suas manifestações e conseqüências, é preciso considerar o contexto social e as pessoas envolvidas no processo. Além disso, o poder tem diversos enfoques nos estudos organizacionais desde o século XIX, sendo esse fato constatado pela existência de obras de variados autores e múltiplos olhares sobre o tema. Dessa maneira, nosso trabalho foi organizado de modo que se pudesse perceber como a temática é multidimensional e subjetiva.

No Capítulo 2, abordaram-se algumas das principais obras sobre o tema Poder: Maquiavel (2004); Max Weber (1984, 2004); Focault (2003); Morgan (1996); Hardy (1994); Mintzberg (1983, 1992); e Pagés et al. (1987), enfocando-se os processos de mediação, os quais podem ser de quatro instâncias: econômica, política, ideológica e psicológica. Pagés et al. (1987) elabora o conceito de um sistema sócio-mental, segundo o qual o estado da organização nos níveis econômico, político, ideológico e psicológico deve ser relacionado com as estruturas inconscientes dos trabalhadores. Além disso, a organização, por meio do processo de mediação, traz uma resposta apaziguadora às contradições inconscientes vividas pelos trabalhadores, impossibilitando a eles assumir essas mesmas contradições.

No Capítulo 3, é apresentado o procedimento metodológico. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva e documental, na qual o locus de observação e análise foi uma agência bancária durante o ano de 2004. O instrumento utilizado na coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada, sendo que a forma de se analisar os dados foi por meio da técnica de triangulação e análise de conteúdo.

No Capítulo 4, é exposta a análise das entrevistas, confrontando-a principalmente com a obra de Pagés et al. (1987).

No Capítulo 5, encontram-se as considerações finais, que trazem recomendações para novos estudos que tenham como referência o tema Poder.

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