capa do livro

O lugar do progresso

Família, trabalho e sociabilidade em uma comunidade de produtores de café do cerrado mineiro

Hailton Pinheiro de Souza Jr.

Quem passa pela região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, atravessando áreas que há não muito tempo atrás já foram cobertas por cerrados, ficará certamente impressionado com as vastas plantações de café, com os grandes tratores e colhedeiras, com os sofisticados aparatos de irrigação e com as evidências do uso intensivo de insumos e tecnologia. Ficará também impressionado ao verificar que nessa região há um bem articulado sistema de associações e cooperativas dedicado a divulgar o "Café do Cerrado" e a buscar a adequação de suas formas de produção e da qualidade do café produzido aos padrões internacionais mais exigentes. Essa também é a impressão geralmente passada pelas reportagens sobre a região: a de uma pujante e homogênea agricultura empresarial em fina sintonia com o mercado externo.

O livro de Hailton Pinheiro de Souza Jr. muito contribui para complexificar e, portanto, problematizar essas impressões, que sem ser errôneas, são algo imprecisas ou incompletas. A sua pesquisa, realizada fundamentalmente em um distrito tido localmente como destacado exemplo da cafeicultura que por ali surgiu nas últimas décadas, mostra que os produtores de café aí residentes, em sua maioria oriundos de São Paulo e Paraná, estão longe de formar um grupo homogêneo, e que as maneiras de organizar a produção de café nessa região também são diversas. Se a imagem que predomina é a de grandes fazendas de café, no distrito estudado por Pinheiro, estas eram poucas. Predominavam aí propriedades relativamente pequenas, muitas delas geridas com participação importante e cotidiana dos membros da família. O livro mostra ainda que no caso desse distrito, a articulação entre a produção de café e a de outros produtos, como certos tipos de hortaliças, assume uma importância muito grande, por motivos bem examinados pelo autor. E que os produtores daquela localidade, com exceção do maior deles, não estavam particularmente preocupados em se orientar por padrões de gestão e de qualidade pautados pelos mercados internacionais.

Mais do que apenas complexificar e matizar a percepção da produção de café nessa região, o livro de Pinheiro faz isso, de forma muito feliz, ao aproximar o leitor das situações concretas vividas por tais cafeicultores e suas famílias, bem como por aqueles que com eles se relacionam. Com base em uma pesquisa na qual conviveu de maneira próxima com os residentes no distrito ao longo de cerca de três meses, o autor inicialmente nos apresenta o local e um pouco de sua história. E principalmente nos apresenta àqueles que de diferentes maneiras habitam essa localidade e ao modo pelo qual se distinguem entre si: produtores (ou cafeicultores), grandes e pequenos, e trabalhadores; mineiros, paranaenses e baianos; peões e diaristas (ou boias-frias). Para abordar o cotidiano que coloca tais agentes em relação, opta de maneira engenhosa por descrever, de diferentes pontos de vista, um dia de trabalho, um dia de missa, um dia de festa, e um evento de caráter técnico, festivo e comercial voltado para os cafeicultores. O fato de incluir dias de missa e de festa já mostra que estamos diante de uma pesquisa que, mesmo conferindo grande importância ao aspecto da produção e da economia, não limita a isso sua pauta de análise, incluindo no centro de suas indagações as formas de sociabilidade e a religiosidade e, como veremos, de vida familiar.

Tendo feito essa apresentação do distrito, o autor passa a abordar sistematicamente o foco escolhido: as famílias paranaenses. Tal foco justifica-se pelo fato de que no distrito, bem como em toda região, é atribuído às famílias vindas do Paraná a "grande transformação" que por ali se deu, com os produtores de café ou cafeicultores assumindo, em larga medida, o centro da economia regional e da cena social. A partir do material cuidadosamente observado, recolhido e elaborado, incluindo o acompanhamento das minúcias do ciclo produtivo, Hailton Pinheiro de Souza Jr. mostra como a articulação hierarquizada entre a produção de café e a de hortaliças ganha seu sentido no cerne mesmo das relações (igualmente hierarquizadas) que constituem as famílias como tais, e aponta também como a reprodução da condição socialmente reconhecida de "produtor" ou "cafeicultor" se impõe como horizonte de futuro.

Mas a parte ao mesmo tempo mais saborosa e analiticamente mais central do livro é aquela em que, novamente de maneira muito engenhosa, Hailton Pinheiro de Souza Jr. escolhe aproximar seu foco e abordar quatro famílias paranaenses. Escolhidas por serem, mais do que "representativas", interessantes e reveladoras de diferentes formas sociais estabelecidas e contradições vividas, tais famílias ao mesmo tempo muito partilham e em muito se distinguem. Ao considerar cada uma delas em sua especificidade, mas também em suas inter-relações, o autor nos mostra ao mesmo tempo a heterogeneidade dos atores e a complexidade das interconexões em jogo. Sublinha a heterogeneidade ao abordar a relação entre os arranjos familiares, as condições econômicas e as estratégias produtivas e comerciais. Mas ao mesmo tempo nos traz indicações perspicazes sobre formas de prestígio que extrapolam a renda ou a riqueza, passando por questões como o ativismo religioso, o trabalho como valor em si, e o sucesso na construção da "união" da família. Tais modalidades de reconhecimento mútuo interconectam as famílias em algo que se poderia pensar como uma "comunidade" de vizinhança, de valores, de códigos compartilhados e de horizontes almejados. Mas que está longe de coincidir com a "comunidade local" do distrito, uma vez que esta é atravessada por separações e diferenciações sutis, mas difíceis de ignorar e de transpor, entre paranaenses e mineiros, entre os que são ativos na Igreja e os que não são, entre cafeicultores e peões ou diaristas, bem como entre a maioria de pequenos e médios produtores e a família de grandes produtores que, voltada para a sede do município e para círculos de relação que extrapolam a região, pouco se envolve na vida do distrito, ao mesmo tempo em que é vista com reservas pela "comunidade" com a qual Pinheiro interagiu. Acompanhando as observações minuciosas do autor, vamos ainda perceber que mesmo dentro de cada família há tensões importantes, que podem se manifestar como "geracionais", mas que estão longe de se reduzir como que "naturalmente" a isso.

A visão passageira, in loco ou mediada por textos de cunho jornalístico, da paisagem dessa região (como de outras regiões emblemáticas do "agronegócio") certamente impressiona, mas depois de algum tempo acaba caindo em certa monotonia. A visão de perto que este livro nos oferece, por sua vez, está longe de ser monótona: mostra não só que há mais diversidade de situações do que pode parecer à primeira vista, como também que há questões em jogo que se adequam mal à imagem de um mundo social homogeneizado pelo mercado. Sem esquecer as inúmeras e intrincadas conexões entre agentes do mercado e a configuração social que, em torno da produção do café, por ali se firmou nas últimas décadas, o trabalho minucioso e paciente de Hailton Pinheiro de Souza Jr. aponta um amplo leque de laços e preocupações, que passam, por exemplo, pela família como valor e como arranjo social, por polêmicas morais, pela religiosidade e as disputas nela pautadas, pelas festas e pelo lazer, por valores atribuídos a distinções de origem. A leitura deste livro contribui de maneira importante para construirmos uma percepção mais complexa de processos sociais em curso em áreas rurais como a aqui abordada, e mais amplamente sobre o que se tem denominado como "agronegócio".

John Comerford

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