capa do livro

Quem tem medo de mal-assombro?

Religião e Infância no semiárido nordestino

Flávia Ferreira Pires

Quem tem medo do mal-assombro: religião e infância no semiárido nordestino já nasceu vocacionado a ser um clássico, introduzindo no Brasil a vertente de estudos antropológicos sobre a infância e desde a ótica das epifanias do sagrado, muito embora o livro não trate unicamente de crianças, mas também de adultos, de vivos e de mortos. A autora, desde a sua formação nos quadros do curso de graduação em Ciências Sociais da UFMG, a qual tive a honra e o privilégio de acompanhar de perto, já prenunciava a pesquisadora destemida e brilhante que o livro que agora vem a público atesta. Flávia nos convida a entrar no mundo do sagrado infantil, fazendo ecoar um outro convite, feito há exatos 73 anos por Michel Leiris no seu fabuloso Le sacré dans la vie quotidienne. Se com o segundo aprendemos que o sagrado é qualquer coisa de prestigioso, de insólito, de perigoso, de ambíguo, de interdito, de segredo, de vertiginoso, de sobrenatural, e cuja noção desenvolvemos na mais tenra/terna infância a partir da experiência de objetos, de lugares, de circunstâncias, de personagens (humanos e extra-humanos), como o chapéu de seu pai, o quarto parental, o banheiro, a salamandra, o hipódromo de Auteil, etc., que povoaram seu mundinho infantil e o educaram para o multiverso da força mágica, logo do poder criador da vida, Flávia nos ensina, numa fantástica etnografia da ontologia dos mal-assombros que, na Catingueira, e para as crianças, o sagrado assume a forma de vampiro, de bruxa, do Homem do Saco, do Papa-figo, da Rasga-mortalha, da Maria Fulozinha, do Gasparzinho (o Fantasminha Camarada), e vários outros personagens da TV, assim como de “acontecimentos inexplicáveis como uma zoada estranha, um vulto, uma bandeira branca, um pano branco, um peso na garupa da bicicleta, um clarão, uma sombra fria, uma gargalhada”; e ainda: “uma tocha de fogo, um assovio, uma voz estranha, uma réstia na parede, uma mão branca cheia de pelos. Sem falar no bicho-papão, no lobisomem, na Mulher de Branco, no espírito de luz,  no zumbi, na Cuca, no esqueleto, na mula sem cabeça, no Diabo, na Morte e nos animais como aranha caranguejeira, morcego, barata, cobra, cobra de cinco cabeças, rasga-mortalha (coruja), jacaré”. Conclui, dando droit de cité às crianças, afirmando que elas não somente têm “a sua visão do mundo”, reconhecendo que uma tal visão de mundo é “uma interpretação plausível, que ilumina aspectos do real que talvez estivessem obscuros a um adulto”, nos ensinado de modo cabal “a legitimidade da linguagem infantil como discurso elucidativo e analítico”. Vai mal-assombro ser gauche na vida...

Léa Freitas Perez

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