capa do livro

Tecendo rupturas

O processo da recriação televisual de Dom Casmurro

Adriana Pierre Coca

Este, caro leitor, não é um livro sobre a microssérie Capitu. É mais. Adriana Pierre Coca realiza um trabalho sobre o processo de ressignificação televisiva do clássico machadiano, considerando as suas sobreposições, fusões e fricções com a literatura, o cinema, o vídeo, as artes plásticas, a música, o teatro e a ópera. Com isso, essa promissora pesquisadora das linguagens midiáticas oferece novas possibilidades para o estudo das diversas formas de convergência da televisão com outras artes. Muito além da adaptação, Adriana faz um estudo que, felizmente, transcende a lógica da fidelidade da “cópia” em relação ao “original”.

Como estudar produtos derivados de processos de adaptação sem remeter à especificidade de cada linguagem e ao ressentimento próprio da retórica vazia da perda do sentido original no adaptado? A autora responde a essa questão, neste livro, de duas formas. A primeira diz respeito à crítica à visão tradicional dos estudos de adaptação. A retórica da fidelidade impõe ao analista uma visão extremamente reduzida, buscando averiguar se a adaptação cumpriu a sua função: a transposição e nunca a transcriação. Adaptar seria somente válido se pudesse manter intacto o “espírito” da obra-fonte. Nessa concepção, acredita-se que todo produto audiovisual teria de se submeter à exigência de ser fiel não apenas à obra literária, mas ao sentido dado pelo autor da obra tomada como fonte. Adaptar, sem o reconhecimento desse zelo, é comumente visto como um processo de perda e, portanto, como um desserviço à literatura. O que se conquista, com esse demérito da adaptação como processo de produção de sentidos e criação de formas e conteúdos, é o estabelecimento de uma hierarquia normativa entre a literatura e o audiovisual, entre a obra original e a obra adaptada, entre a autenticidade e o simulacro, entre a cultura erudita e a cultura de massa, entre o autor e o adaptador. Adriana observa que, sob esse viés, é impossível reconhecer que as diferentes materialidades e sistemas semióticos das formas artísticas e midiáticas são ativos, limitam e possibilitam processos de produção de significação. Aqui, a autora inova.

A segunda resposta – ainda mais interessante – corresponde ao fato de que este não é um estudo de adaptação. Adriana está ciente de que nas interações entre televisão, cinema, literatura e outras artes há muitos mais temas, problemas e objetos de pesquisa do que aqueles que insistem na bizantina fórmula de comparar o texto-fonte ao baseado, avaliando perdas e ganhos de um em relação ao outro. Mais do que comparar Capitu a Dom Casmurro, este livro examina o resultado das fricções e dos contágios entre as diferentes linguagens artísticas e matrizes culturais existentes no produto televisivo em questão. Desde a introdução, Adriana combina, com vigor, a teoria Bakhtiniana da linguagem com o estudo da intermidialidade, como proposto por Claus Glüver. A noção de intermidialidade orienta e estrutura a delimitação do objeto investigado, enquanto as noções de cronotopo e de carnavalização, ambas formuladas por Mikhail Bakhtin, são importantes para a análise da construção de espaços-tempo da narrativa da microssérie. Capitu, portanto, de acordo com a autora, carnavaliza os cronotopos e as interações artístico-midiáticas de Dom Casmurro. Dessa maneira, o livro trabalha a intermidialidade como uma interação semântica de meios de expressão de diferentes artes na microssérie.

A intermidialidade não é apenas uma forma de leitura. É o resultado de diálogos não só entre diferentes textos, mas também entre a microssérie e o telespectador. Nesses momentos de apelo estético, a violação da etiqueta estética e decoro anda de mãos dadas com uma crítica implícita das hierarquias sociais e culturais convencionais. A estética do carnaval é inacabada, elástica, maleável; ela se supera, transgride seus próprios limites, suspende e inverte, mesmo que provisoriamente, as relações entre o alto e o baixo. É interessante observar como Adriana argumenta que, embora Luiz Fernando Carvalho, diretor da microssérie, tenha como projeto estético autoral, com traços modernistas e forte desejo de ruptura com as formas estéticas tradicionais da televisão, haja elementos da cultura popular, do melodrama, do vaudeville e do pop em sintonia com a ópera, as artes plásticas, o cinema e o vídeo.

O trabalho de Adriana ganha ainda mais brilhantismo, quando ela não perde de vista que a produção televisual se constitui de múltiplas determinações (sociais, culturais, tecnológicas, econômicas). Ele, então, analisa a historicidade de Capitu. Tendo em vista a sua questão central (demonstrar as rupturas e continuidades dessa minissérie com outros produtos televisivos e suas relações com outros segmentos da produção cultural), ela interpreta as condições de produção da obra, suas matrizes culturais, as demandas mercadológicas, as configurações institucionais, a produção autoral e a legitimação do estilo de Luiz Fernando Carvalho.

A autora produziu este livro, fruto de sua dissertação de mestrado, combinando rigor metodológico, coleta e sistematização de material empírico, densidade teórica e fluência textual. Isto não é uma tarefa trivial nem simples. É um texto acadêmico com o frescor de uma prosa literária. Realiza uma vasta pesquisa documental (de imagens, notícias, memorandos, entrevistas), sem abonar os pressupostos teóricos. Faz da análise do produto audiovisual muito mais do que uma descrição detalhada. Analisa de fato, a partir das questões e problemas de pesquisa que foram claramente formulados e apresentados.

Alegra-me saber que a área de estudos da televisão no Brasil ganha um livro muito bem realizado, que certamente se tornará referência para muitos estudantes e professores. Muito mais importante ainda é o seguinte: os pesquisadores dessa mídia têm como par a doce, competente, perspicaz e inteligente Adriana Pierre Coca.

Aproveite este livro, estimado leitor. Tenha a certeza de que, assim como eu, você, ao final, ficará ansioso pelo próximo.

Igor Sacramento

Rio de Janeiro, 7 outubro de 2014.

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